(Vanessa Rodrigues/ AT/ Arquivo) Durante décadas, o Brasil construiu sua identidade econômica sobre a ideia de abundância hídrica. Com cerca de 12% da água doce superficial do planeta, sempre se teve a percepção de que água é um recurso barato e praticamente infinito. Em silêncio, o País entrou em uma nova era: a da escassez hídrica estrutural, menos causada pela falta de água e muito mais pela incapacidade histórica de geri-la com eficiência. Os dados recentes mostram isso. Segundo o Ranking do Saneamento 2025, quase metade da água tratada nas 100 maiores cidades brasileiras simplesmente não chega ao consumidor. São perdas que ultrapassam 45% de tudo o que se produz, quando o nível tecnicamente aceitável seria algo em torno de 25%. O impacto disso vai muito além da questão ambiental. Estamos falando de bilhões de litros desperdiçados todos os dias e de um custo econômico superior a R\$ 12 bilhões por ano. Recursos que poderiam estar sendo investidos em expansão de redes, modernização de sistemas e ampliação do acesso ao saneamento básico acabam literalmente escorrendo pelo ralo. O paradoxo é cruel: enquanto quase metade da água tratada se perde, cerca de 35 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso regular ao abastecimento. Ou seja, não estamos diante de um problema de escassez física de recurso, mas de um colapso de gestão, infraestrutura e governança. Diferentemente das crises hídricas do passado, essa nova escassez não se manifesta de forma abrupta. Ela aparece de maneira difusa no cotidiano: contas que aumentam sem explicação clara, redes antigas que operam sem monitoramento adequado e perdas que não são medidas. A água deixa de faltar de forma visível, mas passa a custar cada vez mais, econômica e operacionalmente. Essa mudança de percepção já começa a chegar às empresas e aos gestores públicos. Água deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a ocupar espaço definitivo nas discussões sobre continuidade de negócios, eficiência e gestão de risco. Felizmente, começam a surgir exemplos concretos de que é possível virar esse jogo. Iniciativas privadas que usam monitoramento inteligente e modelos de gestão por performance já demonstram reduções médias de até 30% no consumo em grandes operações como hospitais, hotéis e shoppings. O fim da água barata não significa o fim da água. Significa o fim de uma ilusão que nos acompanhou por tempo demais: a de que abundância dispensa eficiência. O Brasil ainda tem água. O que está acabando é o tempo para continuar desperdiçando. *Felipe Mendes. Engenheiro de produção pela UFRJ com MBA em gestão, inovação e sustentabilidade pela UFRJ e diretor comercial nacional da T&D Sustentável