(Imagem gerada por IA) Ao se deparar com o adejar sincronizado e preciso de mãos e braços de um maestro, é provável que qualquer criança conclua que, se tivesse uma batuta, poderia fazer igual, talvez melhor. É a convicção encontrada somente naqueles que não sabem que não sabem, traço natural nos mais novos. O cenário se torna complicado quando adultos que representam o estado ignoram (ou fingem ignorar) como funcionam as coisas por trás das coisas. Para se tornar um renomado maestro, é preciso aliar profundo estudo teórico sobre música à prática que exige visão aguçada e, especialmente, audição canina para conduzir harmonicamente o conjunto de músicos. O estado funciona (ou deveria funcionar) como um maestro regendo seu corpo de funcionários-músicos, nas diversas áreas que se propõe a atuar. No campo da segurança, nossa sinfônica está completa. Há músicos de cordas – perfilados logo à frente do maestro: policiais civis, militares, federais, rodoviários federais, ferroviários federais, penais estaduais e federais, e guardas municipais. Há, também, músicos de madeiras, logo atrás dos de cordas – promotores de justiça que se esforçam para a condenação de bandidos. E, na retaguarda, músicos de metal e de percussão – juízes que precisam de expressivo empenho jurídico para que, enfim, ocorra o encarceramento de criminosos. Voltemos aos músicos de cordas. Num sobre-esforço, há muito tempo, a Polícia Rodoviária Federal, por exemplo, deixou de autuar apenas no patrulhamento das rodovias federais. Tem sido demandada em diversas operações, muitas vezes em parceria com a Polícia Federal, diante do maestro com gigantesca dificuldade para reger. Os músicos de madeiras também contribuem: diante de legislação penal quase secular, em vários estados, o Ministério Público estruturou o Cyber Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) com a pretensão de efetivo combate à pandemia de golpes pela internet. E a branda legislação sobre o assunto desidrata o esforço do Gaeco. Apenas o estado maestro pindoramense crê que o crime organizado seja desorganizado. O que são as audiências de custódia, se não a pretensão de devolver parcela considerável de criminosos com celeridade às ruas? Por aqui, os esforçados músicos produzem som com ruídos, o que poderia ser superado e agradar aos ouvidos, caso o maestro resolvesse reger em benefício do conjunto. Mas como explicar que é possível alguém preso, portando um fuzil no carro, ser colocado em liberdade na audiência de custódia? Ou que o maestro age no sentido de pagar auxílio-reclusão à família do criminoso encarcerado, enquanto a família da vítima é desprezada? A sinfônica vai tocando movida por enorme boa vontade de seus músicos, enquanto o maestro pindoramense – de mãos trêmulas, surdo e cego – assemelha-se a Cérbero, mas com as 3 cabeças (alusão direta aos 3 Poderes) que se ocupam apenas em morder umas às outras. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da PM, advogado e escritor