(Imagem gerada por IA) As urnas de 2026 mostraram uma geração deixando de ser promessa para assumir as rédeas da política. Reduzir a votação de jovens lideranças como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano a um fenômeno de internet é escolher a explicação mais fácil para uma mudança bem mais profunda. Enquadrá-los como “novos Tiriricas”, mera curiosidade eleitoral ou produto de algoritmo é errar o diagnóstico. São candidaturas com posições públicas definidas, linguagem própria, audiências numerosas e capacidade de mobilização que ultrapassa a tela. O algoritmo amplia. A rede conecta. Mas nenhum deles aperta o botão da urna. Pessoas apertam. E talvez aí esteja a parte mais interessante dessa transformação, muitos desses jovens são filhos de uma geração que também ouviu que seria “o futuro”. Pais que cresceram, em comparação com seus próprios pais, com acesso cada vez maior à escola, televisão, computador, internet e smartphone. Aprenderam a comparar versões, questionar autoridades e buscar informação por conta própria. Hoje, não apenas entregam o "bastão/mouse": ajudam a legitimar quem vem depois. Gerações anteriores viveram num Brasil de informação mais escassa, lenta e concentrada em poucos canais. Agora, uma pesquisa que exigia dias pode ser feita em minutos. Com a inteligência artificial, perguntas, dados e diferentes versões de um mesmo fato cabem na palma da mão. Isso não elimina erro, manipulação ou desinformação. Mas muda radicalmente a velocidade e a forma como a política é compreendida. Por isso, reduzir esse movimento a “trend”, meme ou dancinha é confundir a ferramenta com o fenômeno. A velha política pode chamar tudo isso de onda passageira. O problema é que ondas sucessivas mudam a paisagem. E uma geração formada na velocidade dos gigabits e do touchscreen, inclusive por filhos de quem um dia precisou de auxílio, não aceita transformar amparo em destino, quer autonomia para avançar. E não trocará as redes pelas rédeas de políticas que convertem causas em votos e vulnerabilidades em mecanismos de dependência. A velha política pode rir da dancinha, desprezar o meme e culpar o algoritmo, só não deveria ignorar a urna. Essa juventude não está esperando o futuro chegar; está disputando o presente. E, quando o “enter” vira “confirma”, a “trend” sai da tela, chega às urnas e vira poder. No fim, a dancinha que viraliza é a da velha política descobrindo que seu quadrado ficou pequeno. *Alexandre Aniz. Advogado e pós-graduando em Direito Eleitoral