(Alexsander Ferraz/ AT) Em um mundo tão dividido, exacerbado e cheio de vaidades e lutas pelo poder, de repente, abre-se uma cortina que nos faz ver um desfile de belezas, realizações e que engrandecem a humanidade e nos faz ainda crer que nem tudo está perdido. E é através das artes e das ciências que nos chegam essas conquistas. E mais do que isso, carregadas pelas mãos femininas. O programa Mulheres na Música, apresentado na Pinacoteca Benedicto Calixto, no último sábado, revelou valores de séculos passados, de compositoras e musicistas, através de Recital. O trio formado por Marilia Vargas (soprano), Liuba Klevtsova (harpa) e Camila Fresca (comentários) traz composições feitas desde o século 12 até bem recentemente, por figuras que não tiveram nenhum destaque e se mantiveram apagadas, pelo simples motivo de serem mulheres, numa sociedade totalmente machista e cheia de preconceitos. Algumas poucas eram religiosas e monjas que estudavam nos mosteiros, outras da nobreza, e somente séculos depois começam a ser conhecidas. São nomes que vêm da Itália, da França, Alemanha, chegando até a nossa Chiquinha Gonzaga, que muito lutou e levantou a sua voz por um espaço na música brasileira. Por coincidência, em São Paulo, está sendo apresentada uma peça de teatro, de autoria da filósofa Lúcia Helena Galvão, com o título de Ânima, que mergulha na coragem, nos pensamentos e na luta de seis mulheres que sacrificaram suas próprias vidas em prol de um ideal. A peça surgiu a partir da frase da filósofa Delia Steinberg Guzmán: “Desde sempre e para sempre toda mulher tem parentesco com a primeira estrela brilhante que levou luz ao azul profundo do céu”. Ânima é uma história sobre mulheres que mudaram o curso da história da humanidade contada por uma tecelã. Ela entrelaça os fios da vida em busca de sua ancestralidade feminina, dando voz a mulheres idealistas e pensadoras, como Joana d’Arc, Hipátia de Alexandria, Marguerite Porete, Helena Blavatsky, Harrite Tubman e Simone Weil. Cada fio conta uma história, que escrito nas estrelas, ecoa através dos séculos. Essas, como as compositoras que ouvimos no Recital, quase ninguém nunca ouviu falar, porque não interessava na visão dos poderosos, para quem as mulheres poderiam incomodar-lhes com seu brilho e competência. Para corroborar esse estrelado feminino, a nossa poeta, escritora e trovadora Carolina Ramos, aos 101 anos, ganha agora uma biografia, contando a sua trajetória de desafios e conquistas, que será lançada no dia 3 de maio, no Salão Nobre da Pinacoteca Benedicto Calixto, sob o título Carolina Ramos: Um Século Iluminando nossa Literatura. Os autores e biógrafos são Juarez Avelar, Gabriel Kwai e Fabíola Savioli. Essas estrelas formam uma constelação que nos orgulha no firmamento da cultura e não mais poderão ser tornadas invisíveis, sob nenhum pretexto. Muito brilho para elas. *Eunice Tomé. Jornalista e escritora