(Beti Niemeyer/ Divulgação) Sentar-se na penumbra acolhedora do Sesc Santos para ouvir o mestre Othon Bastos bradar “Não me Entrego, Não” é um exercício de espelhamento coletivo. Aos 92 anos, aquele gigante no palco não apenas interpreta; evoca a força e a resiliência que habitam silenciosamente em cada um de nós. A peça nos transporta àquela encruzilhada da juventude onde o ser humano, cercado por carências, precisa decidir entre o abrigo seguro do pragmatismo e o abismo fascinante da vocação. Foi nesse cenário que o jovem Othon hesitou entre a odontologia e a vertigem da arte. Essa mesma dúvida ecoou no coração de muitos de nós, estudantes nos anos 60. Naquela época, o desejo de integrar o Polo Industrial de Cubatão, na Cosipa ou na Refinaria, era o nosso farol de prosperidade. Mas, para quem partia de origens humildes, o caminho exigia uma verdadeira “engenharia da sobrevivência”. O diploma não era apenas um título; era uma conquista moldada no suor do trabalho em casas de estudantes, onde a regra máxima era a cooperação, fazendo prevalecer o bem comum sobre as dificuldades individuais. Esse espírito de união eu reencontrei, anos mais tarde, na tecnologia da Usina de Oita, no Japão. Sendo a unidade mais automatizada do mundo naquele período, percebi que o segredo do sucesso não residia apenas nos circuitos dos equipamentos, mas na alma da mão de obra. Naquele chão de fábrica, a produção de excelência nascia da autoestima de quem operava o sistema. A experiência provou que o real motor do progresso é o investimento humano via educação. Quando o operário ganha dignidade, deixa de ser engrenagem para se tornar protagonista. O avanço técnico jamais caminha sozinho: é carregado nos ombros de quem domina o saber prático e a lida diária. Com oito décadas de jornada, entendo que a vida é a mais complexa das reações químicas. A ciência é democrática: o ferro que corre no sangue de um operário é o mesmo que pulsa em um grande ator. O cálcio que sustenta o esqueleto do engenheiro mantém Othon em cena. Somos um amálgama de elementos químicos movidos pela eletricidade da vida. Feitos da poeira das estrelas, somos iguais na substância; o que nos diferencia é a retidão com que atravessamos o tempo. Saio do teatro convencido de que o desenvolvimento só é real quando a base da pirâmide acessa o conhecimento libertador. Othon Bastos é um manifesto contra a invisibilidade. Se somos iguais na química, devemos sê-lo no direito à existência plena. Aplaudo o mestre e cada trabalhador que, operando máquinas ou carregando o piano da história, recusa-se a ser apenas um número. Pela dignidade humana, a gente não se entrega, não! * Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental