(Alexsander Ferraz/ AT) Toda cidade guarda promessas que moldam sua forma de viver. Em Santos e Guarujá, o túnel já existia antes de nascer: habitava conversas, relatórios e pausas na fila da balsa. Crescemos com sua sombra, aprendendo que esperar também é atravessar. Agora, em 2025, a promessa ganha corpo. O leilão foi marcado e ocorreu: cifras e prazos se confirmaram. A obra começou a se desenhar em 1,5 quilômetro, com 870 metros submersos, seis faixas, ciclovia, passagem de pedestres e espaço para futuro trem leve. A travessia deixa de ser metáfora e vira engenharia. Relatórios falam em bilhões, empregos e décadas de concessão. Mas nenhum número traduz o riso que nos protegeu da descrença. Por anos repetiu-se a piada de que o túnel só abriria quando nevasse em Santos. Esse humor foi cimento invisível da paciência. Hoje, o sorriso muda: cauteloso, mas já com lampejo de confiança. O túnel não ligará apenas margens. Unirá o centro histórico de Santos, com seus armazéns e memórias, ao bairro Vicente de Carvalho, coração do Guarujá, onde o comércio pulsa e o aeroporto anuncia outro tempo. Esse bairro leva o nome de Vicente de Carvalho, poeta do mar, que escreveu: “A vida é luta renhida, viver é lutar”. A espera de um século se converte em travessia. Cada metro escavado traz responsabilidades. Não se cava apenas rocha, cavam-se histórias. O túnel precisará dialogar com manguezais e famílias. O desafio não é só permitir veículos, mas transformar a obra em política de cuidado. O contrato deve incluir compromissos sociais, ambientais e metropolitanos, reconhecendo a cidade como organismo vivo. Quando a primeira luz percorrer a galeria e se refletir no estuário, compreenderemos que a maior construção não foi o túnel, mas a persistência em acreditar. O concreto terá valor, mas maior será a memória de uma região que soube esperar sem perder a capacidade de sonhar. Até lá, seguimos entre marés e mandatos, respirando o sal da espera, rindo da improbabilidade da neve, cultivando paciência como esperança. Porque uma cidade não se mede em metros escavados, mas na forma como cuida de quem atravessa e do território que sustenta a travessia. E que o túnel, quando surgir, seja mais que obra: seja abraço submerso entre margens, promessa de pertencimento e sinal de que até os sonhos mais demorados encontrem o caminho certo para emergir. *Alessandro Lopes. Arquiteto e pesquisador em Cidades Criativas