(Matheus Tagé/ AT) Todo 8 de setembro, Santos volta os olhos para o Monte Serrat. A procissão e a renovação da consagração da cidade mantêm viva uma devoção com mais de quatro séculos. Por trás da celebração, existe uma história mais complexa e fascinante do que normalmente se conta. Nossa Senhora do Monte Serrat não é uma santa diferente de Maria, é um título mariano nascido na Catalunha, ligado à montanha de Montserrat, cujo nome significa “monte serrado”. A tradição afirma que uma imagem foi encontrada numa gruta no ano 880, o primeiro registro conhecido dessa narrativa, porém, surgiu apenas em 1239. A imagem venerada hoje na Catalunha é uma escultura românica do século 12. Em Santos, a construção da ermida é atribuída a dom Francisco de Sousa, nobre português que governou o Brasil durante a União Ibérica. Não há consenso sobre o ano exato da obra. As fontes a situam entre o final do século 16 e o começo do 17. A narrativa mais conhecida envolve a expedição neerlandesa de Joris van Spilbergen. Costuma-se datar o ataque em 1614, mas os registros mostram que a frota esteve na região entre janeiro e fevereiro de 1615. Segundo a tradição santista, moradores refugiaram-se no monte e rezaram à Virgem. Um deslizamento teria atingido os invasores e provocado sua retirada. O confronto é documentado, o desmoronamento milagroso, entretanto, não aparece no relato neerlandês próximo aos fatos. Isso não diminui o valor religioso da narrativa, mas exige distinguir documento histórico de tradição de fé. Outro detalhe pouco conhecido é que a imagem venerada hoje em Santos provavelmente não é a primeira da ermida. Trata-se de uma escultura de terracota atribuída a frei Agostinho de Jesus e datada por volta de 1652. Portanto, não poderia ser o mesmo objeto presente no episódio de 1615. Em 1723, o Santuário Mariano já registrava peregrinações, promessas e a fama milagrosa da imagem. Em 1926, o vapor Araguary teria escapado de uma tempestade depois que seus ocupantes rezaram e prometeram uma missa. A devoção tornou-se reconhecimento oficial em 1954. Em 8 de setembro de 1955, ocorreu a proclamação e a coroação solene da padroeira. Sua história une montanha e porto, arte colonial e memória popular, perigo e esperança. No alto do monte, Santos preserva não apenas uma imagem, mas uma parte essencial de sua identidade. *Alexandre Aniz. Advogado e pós-graduando em Direito Eleitoral