(FreePik) Uma capa recente da Revista Veja conseguiu um feito raro: afastar alguns leitores antes mesmo de abri-la. Nela, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro aparecem disputando um jogo de tabuleiro, metáfora que, ao que tudo indica, dispensa legenda e, para alguns, também a leitura. Fica a sensação incômoda de que os eleitores moderados encolheram a ponto de assistir, mais uma vez, a uma eleição sequestrada pela polarização. Agora, com uma espécie de “versão familiar” do embate que marcou os últimos anos. Corremos o risco de no próximo capítulo, daqui a quatro anos, o país assistir a uma disputa entre filhos de políticos, como se a democracia fosse um negócio de família? Enquanto isso, o Brasil fora da capa continua menos simbólico. E os números não são exatamente animadores. A educação patina, com milhões de analfabetos funcionais, incapazes de interpretar um texto simples, embora perfeitamente aptos a decifrar promessas eleitorais que nunca se cumprem. A renda per capita segue se afastando de países que, décadas atrás, olhavam para o Brasil como referência e hoje nos veem no retrovisor. No campo econômico, o país assiste a um fenômeno silencioso: o capital anda fazendo as malas. Investidores buscam ambientes mais previsíveis, com regras mais claras e menos sobressaltos institucionais. Não se trata de falta de recursos, mas de falta de confiança. A fuga de cérebros também virou rotina. Jovens qualificados vão para o exterior em busca de oportunidades que o Brasil insiste em adiar. Grandes empresas seguem o mesmo roteiro. Algumas reduzem operações, outras simplesmente desistem. O custo Brasil continua cobrando ingresso caro demais para quem quer produzir. Burocracia, insegurança jurídica e instabilidade política formam um combo pouco atraente. Resultado: empresas vão embora e deixam para trás a conta do desemprego. E há ainda o básico, que continua sendo tratado como luxo. Saneamento insuficiente, infraestrutura defasada, serviços públicos que funcionam em ritmo intermitente. Mesmo assim, os protagonistas de sempre seguem firmes, ocupando espaço, manchetes e capas. A política brasileira parece ter desenvolvido uma habilidade peculiar: troca a embalagem, mas mantém o mesmo produto, enquanto o eleitor, já cansado, segue escolhendo entre velhos conhecidos. Resta a pergunta, com uma dose inevitável de ironia: se o tabuleiro é sempre o mesmo e as peças também, em que momento o jogo mudará de verdade? *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor