Quando eu era criança, meu pai fez um acordo comigo: toda a vez que eu tivesse média escolar mensal a partir de 9,0, ele me daria um livro. Fiz uma respeitável coleção, que incluía autores como Mark Twain, Victor Hugo e Jules Verne, entre outros. Um desses livros, “A conquista do espaço” (1968), de Elliot Dooley, fez com que eu me apaixonasse pela aviação. Eu desenhava aviões, moldava-os com cabos de vassoura e restos de madeira. Cheguei a fazer uma frota de aviões de papel, com formatos variados. Esse prazer pela aviação me faz sempre assistir filmes sobre o tema. Fiquei tão encantado por ela que cheguei a sonhar em obter “brevê” antes de carteira de motorista. No entanto, só fui viajar de avião aos 25 anos, e logo numa viagem transoceânica, graças a uma bolsa de estudos na Europa. Infelizmente, as séries sobre aviação foram rareando na TV, rarefeitas como o ar em grandes altitudes. A TV a cabo e, principalmente, o YouTube me deram a chance de encontrar alguns dos filmes e séries que eu tanto gostava, e os algoritmos associados passaram a sugerir produções sobre o assunto. Foi assim que tive o imenso prazer de conhecer Lito Sousa e seu “Aviões e Músicas”. Ele explicava coisas que não apareciam nos filmes: como funcionavam, a importância de cada item, razões de acidentes aéreos, enfim, um enfoque técnico feito de maneira agradável e objetiva, mesmo quando abordava os temas mais complexos. Lito era um professor de cátedra, tão respeitado que era convidado para outros programas, deixando seus entrevistadores tão interessados quanto eu. Ele dominava o assunto de forma natural, vivaz, cativante, com conhecimento de causa, como toda a pessoa que ama o que faz e se esmera em conhecer cada vez mais. Era um prazer assistir seus programas! Por isso, a notícia de sua doença rara chocou a muitos, inclusive a mim. Uma enfermidade terrível alternou momentos de alguma, pouca, esperança com a certeza de que a morte era iminente e consciente. A despedida de Lito foi de uma tristeza imensa, pois, apesar de dizer que estava preparado para o derradeiro “voo”, creio que ninguém nunca estará, mesmo quando o deseja, por qualquer que seja o motivo. Os aviões imitaram os pássaros e abriram o caminho para o espaço, que, contrariando o que afirma a abertura de “Jornada nas Estrelas”, não necessariamente é a fronteira final. Ainda existem outras dimensões a serem exploradas. Lito provavelmente partiu para uma delas. Pena que não poderá nos contar, do jeito que aprendemos a gostar e admirar, como ela é e funciona. Por tudo o que viveu e legou, seguramente alçou voo, como diz o hino da FAB: “Para orar ao Cruzeiro do Sul”. *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras