(Pixabay) Romualdo, presidente do sindicato dos coletores de lixo de Ybipiru, era um homem de contrastes: vivia entre o odor das ruas e os livros de filosofia que devorava nas horas vagas. A notícia do conluio entre um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e um dos maiores corruptores do país não apenas o indignou, como passou a ruminar em sua mente até se transformar em pesadelos. “O que um pobre como eu pode fazer com isso? Nada? Mas se ninguém faz nada, nunca esse país vai mudar. Se os grandes vivem de apadrinhamentos para se auto proteger, para não tirar do poder quem dele abusa e age para favorecer bandidos, cabe aos pequenos agir, não importa sua estatura ou os meios simples de que dispõem”. Romualdo é um sujeito articulado e mantém contato com vários outros sindicatos. Liga para vários colegas e no dia seguinte envia um comunicado a vários jornais anunciando a greve dos coletores de lixo. O comunicado dizia: “Os coletores de lixo exigem uma limpeza moral nas instituições. Antes de limpar as ruas, é preciso varrer do poder aqueles que o conspurcam. Os brasileiros merecem uma casa limpa e uma justiça digna”. Nas redes sociais, onde o assunto da corrupção no órgão mais elevado da Justiça já era o assunto mais quente e discutido, o comunicado rapidamente viralizou. Compartilhamentos multiplicaram-se e, diante de tanta adesão e aplauso, outros sindicatos resolveram aderir à ‘Operação Limpeza Moral’. No dia seguinte, também os metroviários e motoristas de ônibus resolveram paralisar. Muitos ônibus foram levados para as principais avenidas e estacionados em locais de grande movimentação, ostentando enormes faixas com os dizeres: “Pela limpeza moral dos órgãos que deveriam ser exemplo de justiça”. A cidade parou; os empregos ficaram suspensos, mas o apoio popular era unânime. Os jornais do Brasil e do exterior noticiaram o feito como algo inédito, inesperado, insólito, em certo sentido, heroico. O presidente da República reuniu-se com seus ministros. O Senado, antes inerte, complacente, teve de se movimentar. Nos ambientes das altas Cortes travavam-se diálogos, discussões e projeções de possíveis soluções. A greve — noticiada nacional e internacionalmente — abalou as estruturas da política e das instituições passivas diante da corrupção que grassa impunemente em seu próprio seio. Às 20 horas do terceiro dia, o presidente da República aparece em rede nacional. Elogia a atitude de Romualdo, faz um discurso inflamado defendendo a moralidade das instituições e anuncia a renúncia dos dois ministros que foram o estopim da greve. A iniciativa de Romualdo mostrou que a omissão de muitos órgãos, sobretudo daqueles que mais deveriam se manifestar e agir, não é pretexto para que cruzemos os braços e assistamos passivamente o país ser enlameado. *Reinaldo Mota Jr. Servidor estadual, pós-graduado em Literatura Contemporânea