(Unsplash) No início da década de 1950, meninos de 10 ou 11 anos ardiam de ansiedade. Terminado o curso primário, eles se preparavam para ingressar no ginásio. Essa passagem exigia um exame chamado de Vestibulinho. Ele era formado por quatro matérias: Português, Matemática, História e Geografia. Os dois colégios mais afamados para receber os novos estudantes eram o Canadá e o Santista. No primeiro lecionavam professores civis de muita qualidade. E no segundo os Irmãos Maristas, também mestres de idêntico valor, espalhavam o saber. O Colégio Canadá era gratuito. O Colégio Santista era pago. Embora pertencente à espremida classe média, meu pai ferroviário sonhava em me ver desfilando pelas ruas de Santos e envergando a linda farda branca do Santista. Duas irmãs, Jaçanã e Moema, minhas ex-professoras no curso primário do Externato Santa Rita, me prepararam para os rigores do Vestibulinho. Até hoje me lembro com nitidez do meu tio Correa entrando na minha casa com um sorriso de orelha a orelha. Brandindo um recorte do jornal A Tribuna, ele anunciava aos quatro ventos: “O Carlinhos passou!” E apontava para a nota 10 obtida nas quatro matérias. Em um importante segundo lugar figurava Raul Forbes, com 9.7. Ele pertencia a uma tradicional família de Santos e São Vicente. Os dias iniciais na primeira série do Colégio Santista foram para mim de muitas descobertas. Ao contrário do acanhado espaço do curso primário, em um formoso sobrado do Canal 2, minha nova escola era extremamente ampla. Nela cabiam muitas e espaçosas salas de aula, um auditório, sala de religião, cantina e dois campos de futebol. O campão e o campinho. Meu professor era o Irmão Cirilo. Alto, moreno, de sorriso sempre presente. Mineiro, conservava o sotaque típico da sua terra. Ele era bem didático e nos preparou com sabedoria para os três anos de estudos que viriam. Uma jovem mineira como ele fez balançar seu coração. Por ela, ele abandonou a batina e construiu uma promissora família. Nos tempos de ginásio fui protagonista de um episódio folclórico. Jogando futebol no intervalo das aulas, errei um chute a gol. Mas toquei na bola o suficiente para que ela entrasse no ângulo da trave adversária. Eufóricos, meus companheiros de time me carregaram em triunfo. Participei da farsa ocultando a falha no chute. Apesar de tudo, me considerei um craque. Com chance de me juntar aos pequenos gênios dos Meninos da Vila. *Carlos Conde. Jornalista