(Marcelo Cassal Jr./ Agência Brasil) O Brasil convive com uma contradição que custa caro. A inflação acumulada em 12 meses está ao redor de 4,3%, dentro da banda da meta. Ainda assim, a Selic está em 13,75% ao ano, o que resulta em um juro real próximo de 9%, entre os mais altos do mundo. Vale comparar. Na zona do euro, a inflação projetada para 2026 é de 3%, e o Banco Central Europeu pratica juros de 2,5%. Nos Estados Unidos, a inflação está em 3,4% e a taxa básica não passa de 4%. Nessas economias, o juro real fica perto de zero; aqui, beira 9%. Mesmo entre emergentes, a Colômbia, com inflação acima de 6%, cobra 12,25%, menos que nós. Se o problema fosse apenas inflação, essa conta não fecharia. A diferença está no risco fiscal. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, o maior patamar desde 2021. Em 12 meses, os juros consumiram R\$ 1,18 trilhão, quase 9% do PIB. Quando o mercado duvida da capacidade do Estado de honrar seus compromissos, exige um prêmio maior para financiá-lo. O Tesouro precisa rolar trilhões todos os anos, e o Banco Central, para ancorar expectativas num ambiente de desconfiança, acaba obrigado a manter o juro lá em cima. O juro alto não é a causa: é o sintoma. E o sintoma se retroalimenta. Juro alto aumenta a conta da dívida, que aumenta o risco, que pede juro alto. Quebrar esse ciclo exige equilíbrio fiscal de verdade, não apenas na União, mas também em estados e municípios. Gastar dentro do que se arrecada, com previsibilidade e qualidade, é a política econômica mais poderosa que um governo pode adotar. Isso porque juro baixo distribui renda como nenhum programa consegue. Cada ponto a menos de Selic alivia a família endividada, viabiliza o investimento da pequena empresa, barateia o capital de giro e destrava projetos que geram empregos qualificados, com salários acima da média atual. Hoje, a renda dos juros da dívida vai para quem já tem patrimônio aplicado. Com juros menores, esse dinheiro migra para a produção. Para a cadeia produtiva que gira em torno do Porto de Santos, o tema é concreto. O porto investe e cresce, mas é na ponta que o juro pesa: a transportadora que adia a renovação da frota, o operador logístico que financia capital de giro a custo proibitivo, a empresa de tecnologia que não consegue crédito para escalar. Com juro real perto de 9%, a aplicação financeira concorre com o próprio negócio, e muitas vezes vence. O Brasil não precisa de mágica. Precisa de juros compatíveis com os de seus concorrentes, e isso só virá com contas públicas equilibradas em todas as esferas de governo. Responsabilidade fiscal não é pauta restrita a economistas: é a base para crescer, empregar melhor e competir. *Adalto Correa. Economista e diretor-executivo da Associação Comercial de Santos (ACS)