(Alexsander Ferraz / AT) Durante a Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea Real Britânica (RAF) analisava os aviões que retornavam de missões para mapear os danos na fuselagem, asas e flaps. A abordagem inicial dos projetistas era reforçar justamente os locais mais metralhados. O matemático Abraham Wald, no entanto, percebeu o erro: o reforço deveria ser aplicado onde não havia marcas de bala. Afinal, os aviões atingidos nesses locais críticos sequer sobreviviam para retornar. Esse fenômeno estatístico ficou conhecido como “viés de sobrevivência” - o erro de extrair conclusões analisando apenas os casos bem-sucedidos. Na engenharia diagnóstica, especificamente no âmbito das leis de autovistoria predial (como a Lei Municipal 441/01, de Santos, ou legislações municipais e estaduais correlatas), esse viés se repete de forma perigosa. Engenheiros, arquitetos e síndicos frequentemente negligenciam estruturas — como marquises e pilares — que se mostram visualmente impecáveis e sem fissuras aparentes, priorizando apenas as áreas com manifestações patológicas visíveis. Trata-se de um erro crítico. O concreto estrutural pode estar sob o efeito de fenômenos mecânicos complexos ou sofrendo de patologias internas invisíveis a olho nu. Elementos submetidos a cargas de longa duração sofrem o Efeito Rüsch, que reduz a resistência efetiva do concreto ao longo do tempo se comparada aos ensaios rápidos de laboratório. Paralelamente, processos silenciosos como a reação álcali agregado (RAA), a carbonatação e o ataque por cloretos podem já ter iniciado a corrosão interna da armadura de aço e a desorganização da matriz do concreto, sem qualquer sinal externo inicial. Tratar a ausência de sintomas visíveis como sinônimo de segurança estrutural é blindar o avião onde ele foi alvejado e sobreviveu. A estrutura mantém uma falsa aparência de estabilidade até o momento em que ocorre uma ruptura frágil e catastrófica, sem aviso prévio. A autovistoria técnica exige, portanto, ensaios não destrutivos e análises profundas que superem a mera inspeção visual superficial. *Orlando Carlos Batista Damin. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, ex-professor das disciplinas de Patologia das Construções e Execução deObras daUniversidade Santa Cecília e ex-engenheiro da Seção de Inspeção de Estruturas da Prefeitura de Santos