[[legacy_image_319757]] “Governar é abrir estradas”. Essa plataforma de governo de Washington Luís faz cem anos. Peremptoriamente assim, a panaceia resolveria todos os dramas do atraso brasileiro: rasgar selvas, pôr abaixo matas ancestrais, ligar nada a lugar nenhum em nome do ‘progresso’ que chegava em quatro rodas na euforia das linhas de produção de Henry Ford. A mentalidade automobilística de queima desenfreada de carbono chegaria ao auge com o “desenvolvimentismo” juscelinista e a consequente disseminação do transporte individual como símbolo de status. O modal de escolha brasileiro mimetizava a tara pela combustão a gasolina dos americanos, bem diferente do padrão impresso pelos ingleses em seus domínios. Só lembrar os romances de E.M. Forster e Agatha Christie ou filmes de David Lean para perceber a importância dos trens para britânicos e ex-colonizados. Mas diante da crise climática que na verdade é mais que crise, é tendência permanente de elevação das temperaturas do planeta, me utilizo do slogan do elegante ex-presidente paulista de Macaé, Washington Luís, para inverter sua lógica: governar é investir maciçamente em transporte coletivo de qualidade, não poluente, energeticamente sustentável. E mais para as cidades saturadas de prédios que ofuscam suas sombras, áridas de sombras e refrigério para o forno entre seus espigões gentrificados, governar é plantar árvores, governar é construir parques. A impermeabilização de nossas praças e ruas e o saturamento de nossos rios nos levaram a uma congestão urbana insustentável. Parques, áreas verdes verticais, política pública de reflorestamento das megalópoles como feito pelo imperador com a Floresta da Tijuca, como os jardins de Santos pelo poeta Vicente de Carvalho. O que seria de Manhattan sem aquele bosque artificial? Sim! Um parque inventado pela mão humana, que do contrário faria de Nova Iorque caos sem charme e brisa. Exulto com o Parque Augusta, criado com muita luta, para que na lendária rua florisse um pequeno Ibirapuera. As cidades deveriam mais e mais dar lugar ao verde, tornando-se mancha cinza de exceção contornadas por verde regulando temperatura e umidade na supressão de cimento e asfalto. Seria simplista escolher um só pensador para salvar o mundo, mas aposto em Thoreau que dizia: “De que vale uma casa se você não tem um planeta tolerável onde a colocar?”. Thoreau previu há duzentos anos tudo que vivenciaríamos se seguíssemos mesmo ritmo de destruição. Caiu a ficha para os individualistas que imaginavam que se salvariam em meio a tanto falso luxo e degradação. E não imaginem que ecologia é salvação só para ‘áreas nobres’ ou cultura associada ao meio-ambiente de um oásis. O verde, se não for para todos, não salvará ninguém. As periferias são exemplo do pior dessa exclusão: sem lazer, sem árvores, sem saneamento. Não se trata de utopia dos poetas. O verde vencerá ou seremos vencidos.