(Reprodução) O teatro é a arte total, a maior prova da não obsolescência do humano e o melhor antídoto diante do império dos algoritmos. Quatro mil anos e o teatro persiste, integrando todas as artes organicamente. Patrícia Galvão, a nossa Pagu, foi musa, agitadora, militante de esquerda, queria virar o mundo do avesso e, na maturidade, percebeu que nada mais era subversivo do que a arte. Entre elas, o teatro era a mais coletiva, direta, mobilizadora. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em Santos, tendo A Tribuna como trincheira, descobriu autores desconhecidos para o mundo. Revelou um Arrabal ainda quase inédito, descobriu Octávio Paz, um obscuro poeta mexicano, e antes descobrira Clarice Lispector e Hilda Hilst. Pagu era um farol vivo iluminando talentos, e cito dois saídos de seu fulgor: Plínio Marcos e Zé Celso Martinez. Foi em 1958, quando criara o Festival de Teatro Amador, de relevo nacional, mas sediado em solo praiano em parceria com Paschoal Carlos Magno. Duas peças que marcariam a trajetória do maior dramaturgo brasileiro e o maior diretor: Barrela explodiu no festival ao mesmo tempo que Vento Forte para Empinar Papagaio. O Festa chega agora aos 66 anos como verdadeiro patrimônio imaterial da brasilidade. Este ano, a abertura tem forte simbolismo pela presença de uma das atrizes que mais se aproximam do senso missionário impresso por Pagu ao ofício sagrado do teatro. Vera Holtz tem prestado imenso serviço à reflexão e à ressignificação de nosso tempo nos palcos. Ficções, baseada no pensador Yuval Harari, é um caleidoscópio de relevo borgiano sobre a jornada humana, de modo desconcertante anunciando a encruzilhada apocalíptica que nos desafia. Um manifesto humanista radicalizante empreendido num tour de force que pedia uma intérprete única como a parceira de nosso inesquecível Sergio Mamberti em Pérola. Mamberti, ele mesmo, cria de Pagu. Neste sábado, na Casa das Culturas, a incansável Lucia Teixeira relança Cadernos de Pagu ao mesmo tempo que a peça Vila Socó, premiada com o Shell, representa Cubatão com uma leitura encenada da sua pungente criação dramatúrgica. É incrível que Pagu tenha vivido pouco mais de 50 anos e nos deixado um legado tão duradouro. Uma cidade que mantém um festival por 66 anos me dá crença na grandeza de seu destino. Recorrendo a Pagu, em seu autorretrato, transcrevo das mais lindas declarações sobre a solitária sina do artista: “Toda vida eu quis dar. Dar até a anulação. Só da dissolução poderia surgir a verdadeira personalidade. Ser possuída ao máximo. Sempre quis isto. Ninguém alcançou a imensidade de minha oferta”. Com atraso, mas enorme poder de influência, a oferta de Pagu tem florescido e deitado raízes entre jovens com olhos brilhando diante das infinitas possibilidades que o teatro oferece para o resgate do espírito na era da bruteza. Desde já, sugiro que 2025 marque a celebração dos 90 anos de Plínio, que retratou miséria e êxtase a partir deste cais, de nossas quebradas, da nossa indignação contra todo preconceito aos que estão à margem da vida por excesso de poesia. Salve Festa! Salve Pagu! *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande