(FreePik) Estava agora há pouco trabalhando no computador e resolvi ouvir música. Mas nada de samba ou rock’roll – impossível se concentrar com o corpo querendo dançar. A escolha foi ouvir o que chamam de música clássica, o que, para mim, poderia ser também um Paulinho da Viola ou Tom Jobim, por exemplo. Mas vamos lá ao que se chama, habitualmente, de clássico. Lembrei do filme Amadeus, que assisti no cinema, em 1984. Um grande sucesso de crítica e público. Esse filme é tão exuberante que quando saí do cinema, não esqueço, a vontade foi de ouvir toda a obra do grande compositor, o gênio da música, Wolfgang Amadeus Mozart, que iniciou sua carreira aos 5 anos de idade. Não sou um erudito musical. Gosto de tudo um pouco: soul, rap... menos o tal sertanejo universitário. Outro dia entrei em um carro de aplicativo e o motorista estava ouvindo a cem decibéis uma música que chamam de sofrência. Aí, então, entendi, por que essas músicas são chamadas assim. Pior que as dores de cotovelo do samba canção, elas são de rasgar o coração, o pulmão, e, principalmente, o fígado. É certo que reclamei com o motorista, que pelo menos abaixasse o som, que se virou para trás, como quem diz, você não tem coração? É um desalmado? Fiquei quieto, pois meu destino estava próximo e, pelo que percebi, a discussão iria render mais tempo que propriamente o resto da viagem. Em casa, abri o tal aplicativo e suspendi meu cadastro. Chega de sofrer! Pago um pouco mais, e, descobri que nem tanto assim, e faço como a Angélica, vou de táxi – hum... essa foi de doer. Nestes tempos, de informação imediata, os problemas também surgem e exigem uma resposta imediata. Tudo e todos são imediatos; do mesmo modo que chegam, se esvaem. É o que chamo de fast food de tudo. E aqui, me refiro à ‘fast music’. Ao contrário, Mozart, há 270 anos, tendo vivido somente 35 anos, deixou uma obra imensurável, que exige percepção da harmonia e do solo de violino. Não ache que sou dos tais de hábito e gostos refinados e faça disso motivo de exclusão social, que se utilizam de conhecimento para expor superioridade e justificar um lugar social. Como ouvi certa vez do Dr. Célio de Castro, médico mineiro renomado, ex-deputado federal e ex-prefeito de Belo Horizonte, quem muito eu admirava: Cultura é tudo que fica com você depois que você esqueceu o que aprendeu. Cultura é tudo que o ser humano cria e compartilha em sociedade; portanto, a música de sofrência e o sertanejo também fazem parte da cultura de um povo, não posso negar. ‘Fast music’ também é cultura. Mas há dias em que só Mozart salva. *Marcio Aurelio Soares. Médico