(Imagem Ilustrativa/ FreePik) O relógio na parede... a chave da corda, na mão firme... rec, rec, rec, reec, reeeec, plim... vou alegrar o ambiente. Ligo a caixa de som multifuncional, “Play by USB drive” diz a moça do aparelho, com sotaque charmoso. A música começa: Eu sei/Que o tempo não para/O tempo é coisa rara/E a gente só repara/Quando ele já passou. Trecho da música O Tempo não Para, composta por Miguel Gameiro e interpretada por Mariza, cantora portuguesa de canto mouro fadístico que não apenas canta, confessa! Sabe aquele sujeito, aquele mesmo, que chega, veste o melhor sorriso, bebe a felicidade, chora as mágoas, conta suas histórias e parte sem dizer tchau? Quando vai embora, leva consigo a juventude, a paciência e metade dos nossos planos elaborados durante toda a vida. Ele está sempre correndo, como se fosse um atleta de maratona, acelerado pelas novas tecnologias. Antes, esperávamos dias e dias por uma carta. Hoje enviamos mensagens em segundos, e a resposta só vem rápido se o contato estiver “on-line”, caso contrário bate aquela ansiedade, não é? Muitas vezes deixamos os afazeres de lado. “Daqui a pouco eu faço!”. Passa o tempo... quando percebemos, o “daqui a pouco” virou “ontem” e nem lembramos o que íamos fazer. Perder a hora de um compromisso, o prazo do imposto de renda... tudo parece escapar Tentamos de qualquer maneira prendê-lo. Pobres mortais somos nós. Usamos agendas (ainda usamos?), planners coloridos e lembretes no celular; tudo inútil. Ele é volátil; não palpável; difícil de segurar com nossas mãos. “Quer uma água com gás, uma bolachinha? Fica mais um pouquinho...”. Temos que viver os pequenos e grandes momentos de nossas vidas, plenamente. Sabemos que há os imprevistos no percurso, mas o tempo cura tudo, mesmo quando bate à porta para nos lembrar dos tempos idos que estarão sempre conosco. O mundo tem pressa, gira cada vez mais rápido e, se a Terra gira na contramão, logo o tempo se faz em silêncio, as estrelas vendem seu brilho, o destino vira a curva e a alma tropeça no tempo esquecido, como escreveu o poeta João Baptista Coelho, “A vida é o tempo que Deus nos empresta”. Somos como crianças pedindo “só mais cinco minutos” para brincar, ou adultos desejando “cinco minutinhos” de sono. Esse último pedido é perigo, pois os cinco minutos podem virar trinta e nos atrasar para o trabalho. Talvez devêssemos contemplar mais. Parar de viver no Wi-Fi e encarar o tempo real. Não ser distante do agora, não o ver como inimigo, ouvi-lo ao coração e respondê-lo com desejo de mais, como na música: “Não sei se andei depressa demais/Mas sei, que algum sorriso eu perdi/Vou pedir ao tempo que me dê mais tempo/Para olhar para ti/De agora em diante, não serei distante/Eu vou estar aqui”. *Jardel Pacheco. Professor, escritor, ativista cultural e Diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais