(Imagem ilustrativa/ Gerada por IA) O artista dispôs os materiais sobre a mesa como quem organiza não apenas ferramentas e sim, símbolos de um destino. Pincéis, tintas, panos e apetrechos repousavam em silêncio, aguardando o instante em que seriam convocados para dar forma ao invisível. Havia ali uma solenidade discreta. Cada objeto, testemunha de um rito. A mesa tornava-se altar, gesto inicial de uma inspiração. O fundo foi traçado com ordem e confiança. Um céu de cor avermelhada; para ele, a esperança vermelha sempre se apaga em tons de cinza. Não sabia se aquela pintura seria criação imortalizada por gerações, ou apenas mais uma tentativa esquecida em uma parede branco-gelo. Também não queria ser como tantos. Qual o valor da erudição se a soberba prevalece? A arte não se constrói sobre certezas; nasce do risco, da entrega ao desconhecido. As pinceladas eram mais que pigmento, alma revelada, e o artista, mediador de uma força maior. A tela deixava de ser superfície e transformava-se em espelho. A cada traço, o pintor percebia não formas, mas seu ser autobiográfico, mesmo quando falava do mundo. Carregava memórias, dores, expectativas. O íntimo era visceral. O quadro crescia em confissão. Via diante de si mesmo, exposto, vulnerável e pleno. Dava forma ao cavalo branco, patas ao ar, desgrinaldo, cabeça erguida a relinchar. O cavaleiro, firme, com uma mão na rédea e a outra no mastro de uma bandeira em farrapos, sustentada num sopro de fé... Então, o inesperado. A bandeira manchada! Num instante, uma falha irreversível. A tinta secou rápido demais, endureceu, cicatriz coagulante. Entristeceu, pois sabia, marcas não se apagam. Manchar a bandeira é ferir um símbolo superior ao gesto e ao próprio homem. A tela, agora, carregava o peso da imperfeição. O artista contemplava o erro como a própria finitude. Não havia como desfazer o inscrito, restava apenas aceitar. Obra não divina, humana. Nesse instante, o pintor compreendeu, porque a arte não é feita de eternidade nem de perfeição, mas de cicatrizes. A marca é testemunho da fragilidade humana diante dos símbolos maiores, além dela. A criação não seria lembrada pela pureza, e sim pela coragem de existir, apesar da falha. Isso nos ensina que o sentido não está na ausência de erros, porém na capacidade de transformar o erro em revelação. Recolheu os pincéis e olhou a tela com resignação e reverência. O inscrito permanece, e nesse permanecer encontrou a verdade. Aceitou. Sua realização não seria divina, seria humana, e na humanidade, feita de falhas e cicatrizes, residia a verdadeira eternidade. A bandeira vencida, manchada na tela, coisa perdida que vai a leilão, será o sonho coletivo tropeçando nos próprios pés. *Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios