[[legacy_image_309323]] “Meus pais nunca me sonharam psicólogo, nunca me sonharam professor, nunca me sonharam médico”. “Estou feliz porque serei o primeiro da família a terminar o Ensino Médio. Vou fazer vestibular para Direito”. Essas são as falas de Felipe Lima e Francisco Ronildo, dois estudantes brasileiros que participam do documentário Nunca me Sonharam (2017), produzido por Maria Faria Filmes, em parceria com o Instituto Unibanco. Trata-se de uma obra que expõe, na voz de estudantes, gestores, professores e especialistas, os desafios e as expectativas para o futuro e os sonhos de quem vive a realidade do Ensino Médio nas escolas públicas brasileiras. Hoje, jovens como Felipe e Francisco realizam o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a porta de entrada para o Sisu - sistema que possibilita o acesso às instituições de Ensino Superior públicas, além de institutos federais. Os resultados de desempenho também serão aceitos em mais de 50 instituições de Educação Superior portuguesas, bem como por diversas academias privadas de Ensino Superior, incluindo-se as instituições comunitárias (Ices). Este ano, o Enem registrou 4,6 milhões de inscritos, número consideravelmente maior que a edição passada, mas bem distante da de 2014, quando o exame atingiu 8,4 milhões de candidatos e se consolidou como a maior prova de acesso ao Ensino Superior do Brasil. Evidentemente que, na década anterior, o exame não sofreu reflexos da pandemia, o que impactou em números de abstenção (32,4% em 2022), mas, principalmente, refletiu o abandono e a evasão escolares crescentes, em um país multifacetado e desigual como o nosso. O fato é que, paralelamente às discussões sobre a implementação do Novo (?) Ensino Médio, o qual passou por um processo de consulta pública na primeira metade do ano, faz-se mister uma reflexão aguda e ponderada do percurso até se chegar ao Enem. É inegável que este se consolidou como um grande portão de acesso a jovens como Francisco Ronildo, que pode ser o primeiro de sua família a conquistar uma vaga no ensino superior e, então, fazer parte dos 18% dos brasileiros entre 18 e 24 anos que atingiram esse feito. Todavia, cabe ressaltar que, em suas primeiras edições, mais do que possibilitar o importante acesso ao Ensino Superior, a proposta do Enem fora apresentar indicadores educacionais, a partir do desempenho dos estudantes, a fim de planejar e aprimorar políticas educacionais, especialmente da rede pública. Tal resgate desse objetivo inicial é premente e deveria caminhar com implementações de ações consistentes para conter o abandono e a evasão, o que não se satisfaz apenas com a proposta de uma nova (?) curricularização e ampliação de carga horária. Estima-se que, hoje, 38% dos jovens em idade de 15 a 17 anos nem estudam, nem trabalham. Eis a inevitável pergunta: onde eles estão? Esses não participarão da edição do Enem neste ano porque fazem parte de uma realidade brasileira distópica, em que jovens não têm, por inúmeras razões, a participação familiar em sua trajetória escolar. Vivem, por vezes, em redutos marcados por extrema violência e condições insalubres. Outros viajam em caminhões abertos na zona rural para se deslocarem à única escola de sua região. E o mais assustador: 14 milhões não têm acesso a saneamento básico, condição fundamental para o mínimo de higiene, bem-estar e aprendizagem. Além desse quadro, como divulgado amplamente na imprensa nos últimos dias, apenas 58% das escolas públicas possuem computadores e acesso à internet. Um Ensino Médio mais atrativo aos jovens e conectado aos anseios dos novos tempos é um desejo da nossa sociedade, mas os velhos desafios sociais, relegados pela ausência de políticas públicas de Estado, aliadas à inabilidade de gestão em um país de dimensões continentais como o Brasil, precisam urgentemente ser enfrentados. Dada essa realidade, todos os participantes do Enem 2023 das escolas públicas já são vencedores. Faltam-lhes, contudo, como na fala do garoto Felipe, serem sonhados; não apenas pelos seus pais, mas por um país inteiro.