(Pixabay) Em artigo publicado no jornal Valor, em 15 de julho, Ana Maria Diniz, empresária, fundadora do Instituto Península e conselheira do Todos pela Educação, levanta uma questão intrigante: “A escola mata a criatividade?”. De acordo com Ana Maria, a 49ª colocação do Brasil entre 69 países participantes no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que mede a qualidade da educação e é realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indica uma resposta afirmativa. Além de língua portuguesa, matemática, leitura e ciências, a última edição da avaliação do Pisa trouxe uma novidade: a aferição do pensamento criativo ou “saber pensar fora da caixa”. O Pisa entende criatividade como a “competência para se envolver produtivamente na geração, avaliação e melhoria de ideias que possam resultar em soluções originais e eficazes”. Nesse quesito, o Brasil se posicionou nos últimos lugares do ranking, com um índice baixo e inferior à média global. Mesmo diante do resultado inferior da escola brasileira, relatório publicado pela OCDE apontou que o rendimento alcançado superou as expectativas da própria organização. Ainda que essa declaração traga bom ânimo, não reduz a apreensão dos envolvidos no processo educacional brasileiro, não só por causa do déficit na aprendizagem, mas por evidenciar a lentidão do progresso de nossa educação, em especial aquela ofertada pelo ensino público. O prejuízo da defasagem é nocivo para toda a sociedade, em particular para o mercado de trabalho contemporâneo. Organizado pelo Grupo Tribuna em 29 de julho, o fórum A Região em Pauta chamou atenção para a necessária convergência entre educação e inteligência artificial (IA). Ficou claro nas exposições apresentadas que a criatividade é uma capacidade que assume relevante protagonismo no presente, especialmente na era da inteligência artificial. Novas tecnologias exigem trabalhadores criativos, que possuam bom vocabulário e vasto repertório para desenvolver bem suas tarefas. Não há dúvida de que a educação possui um papel significativo na construção desse profissional. Atualmente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nem sequer esboça uma diretriz educacional para o letramento digital, enquanto a oferta do ensino de informática é facultativa às redes de ensino, que optam por priorizar ou não o investimento nessa área. Dados do Qedu apontam que apenas 30% das escolas públicas do País possuem laboratório de informática, o que precariza o trabalho docente e impossibilita o aluno de desenvolver saberes relacionados à tecnologia digital. O Projeto de Lei 6.356/19, que visa a tornar obrigatório o laboratório de informática nas escolas públicas, está parado na Câmara Federal. É urgente o desenvolvimento de políticas públicas para a inclusão de tecnologia da informação na educação básica, bem como ampliar esforços para melhoria da qualidade do ensino. A construção de um currículo de ‘cultura digital’, competência 5 da BNCC, deve ser prioridade para as redes de ensino, juntamente com investimentos em recursos tecnoló-gicos. Caso contrário, o Brasil corre o risco de permanecer na “vanguarda do retrocesso”, assistindo passivamente à corrida tecnológica da inteligência artificial. *Márcio Simões da Silva. Professor das redes públicas municipais de São Vicente e Santos e especialista em Direito Educacional