(Imagem ilustrativa/ Gerada por IA) O tempo é implacável e escorre pelas mãos em minutos, segundos, sem que o percebamos. Nas baladas das infinitas horas do nosso viver, as marcas, porém, vão aparecendo e nos encarando de frente, ao olharmos no espelho. É bem verdade o que nos disse Cecília Meireles, em seu poema Retrato - “Em que espelho ficou perdida a minha face”? É um tema de profundas reflexões sobre a passagem do tempo, a identidade e as transformações da vida. Mas, além, é também um momento de avaliação do que se fez com esses anos passados e a música imortalizada pela banda Titãs existe para nos lembrar do que foi desperdiçado, quando éramos jovens e achávamos que o tempo seria eterno para realizarmos todos os nossos sonhos, desejos e prazeres. A citada música, que de tempos idos volta sempre à nova realidade, é Epitáfio, de autoria de Sérgio Brito. Nessa época, eu já não era tão jovem assim e já caía como um lamento, e juro que fazia uma autocrítica sempre que a ouvia. O que falar, então, de hoje, com menos oportunidade de ganhar o tempo perdido e rever atitudes e decisões, muitas vezes apressadas e no afã da correria? Os versos de Epitáfio - “Devia ter amado mais,/ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito o que eu queria fazer”. E por aí vai. É confessional, estilo do mea culpa, relata as impressões de um indivíduo obviamente amargurado, frustrado, em certa medida, ao fazer o balanço pessoal das perdas e danos de uma vida repleta de senões. E como na concretude, esse existencialismo tão bem colocado de viver o momento com mais intensidade não poderá ser alcançado novamente, nos colocamos a pensar que o que foi, foi, com arrependimentos ou não. As artes, como a música e a poesia nos ajudam a encarar nossos equívocos do mal viver e servem para abrir os olhos para aproveitar o aqui e agora, mesmo que seja quase numa reta final. Assisti ao Roda Vida com a presença de Tony Bellotto, um dos idealizadores da banda Titãs, Ele, como todo ser humano, traz um retrato do tempo e, sabiamente, foi buscar em algo que agrega valor à arte musical, que é a literatura, onde as histórias, as experiências e até as lamentações ganham registros para a posteridade. Bellotto lançou seu primeiro livro em 1995 - “Bellini e a Esfinge”, e hoje já são 11 publicados, sendo o último, em julho de 2024, com o título “Vento em Setembro”, que recebeu o Prêmio Jabuti, em 2025. O epitáfio do Bellotto, talvez como escritor, tenha um dado a mais - consegui criar pessoas e personagens, nem sempre satisfeitos com a vida, mas deixei nas entrelinhas os caminhos … Eu aqui fico com a minha tristeza de ver o tempo passar… *Eunice Tomé. Jornalista e escritora