(Divulgação/ Prefeitura de Praia Grande) Entrei no taxi. Como de hábito, o rádio do carro estava ligado — eterna companhia dos motoristas. Ouvia com nitidez, uma voz masculina jovem, falando de algo que me soava próximo. Fazia uma resenha de um livro. Pensei: “Esse motorista é diferenciado”. Tenho usado bastante o serviço de taxi e não tenho me surpreendido com o repertório de músicas de baixa qualidade ou de discursos religiosos. Dessa vez foi diferente. Quem falava no rádio era o jogador de futebol do Atlético Mineiro Gustavo Scarpa. Um cara por quem não nutro grandes simpatias. Torço para o Fluminense e nunca engoli direito a maneira como Scarpa deixou o clube. Coisas que só o “sobrenatural de Almeida”, personagem de Nelson Rodrigues, pode explicar. O programa era de futebol, se não me engano sob comando do jornalista Fernando Fernandes, conhecido no meio como Fernandinho. Um jornalista boleiro de quem todos gostam. Até aí, qual a estranheza? Você deve estar pensando: “Um jogador dando entrevista para um repórter num programa de futebol”. Mas não era isso que eu estava testemunhando. Scarpa fazia a resenha de um livro — isso mesmo, de um livro. E não de qualquer livro: tratava-se de A Morte de Ivan Ilicth, do russo Liev Tolstói. Fez isso em seu perfil do Instagram, que explodiu de curtidas. E o livro, segundo o repórter, estava esgotando na Amazon. Vejam o poder da comunicação. O jogador, sem nenhuma soberba literária, falava com simplicidade sobre um clássico da literatura russa e se comunicava diretamente com motoristas, donas de casa, comerciantes, eletricistas e pedreiros, muitos deles habituados a manter o radinho ligado durante as horas de trabalho. Fico imaginando cem, ou que fossem dez, Scarpas fazendo o mesmo. E outros repórteres e rádios comerciais abrindo espaço para esse tipo de iniciativa. Seria uma pequena revolução através da leitura. Scarpa está mudando hábito de seus colegas durante a concentração antes dos jogos e fomentando a leitura através do rádio e de seu perfil nas redes sociais. Estou aguardando que ele faça uma resenha do meu livro Minha Biblioteca Sou Eu. Seria o máximo. Não que eu o conheça pessoalmente, mas você lembra da teoria dos “seis graus de separação”. É a hipótese de que duas pessoas quaisquer no mundo possam estar conectadas por uma cadeia de aproximadamente seis relações pessoais. Então? Só faltam quatro. *Marcio Aurelio Soares. Médico e escritor