(Clément Falize/Unsplash) Escrevo, e sei que você está aí. Não apenas como um leitor casual, mas como um parceiro a percorrer as entrelinhas e se deixar levar pelo fluxo das palavras. Você não apenas lê. Você escuta. Escuta o que não digo, o que deixo escapar nas pausas, nos ritmos, nas perplexidades. Há um pacto invisível entre nós. Vou trazendo à luz meus pensamentos, e você os acolhe, os molda, os redefine. No princípio, escrevo para mim, mas sei, no instante em que meus olhos deixam o papel, a escrita já não me pertence. Você a toma para si, a administra com suas próprias experiências e algo novo, quase inexplicável, acontece. O diálogo entre nós transcende a fala. Você absorve o que eu não explico, percebe o que eu insinuo. Quando hesito, você completa. Quando exagero, você pondera. Somos dois lados de uma mesma criação; eu, lançando palavras ao vento, e você as recolhendo, pronto para abrigá-las. Dizem que escrever é um ato solitário. Porém, sei que não estou só. Do outro lado há você, que lê com olhares gulosos e atentos, com o coração aberto, a se permitir o toque repleto de magias. Aqui vou eu escrevendo e você decodificando tudo com astúcia. Eu lançando as sementes e você colhendo os frutos. Existimos juntos, nesse espaço onde as palavras ganham vida e cumprem seu destino: unir pessoas. Há momentos em que a escrita se torna um espelho. O que coloco no papel reflete não apenas meus pensamentos, mas também os seus. Cada frase que nasce carrega um pouco daquilo que já foi vivido, sentido e imaginado a partir da nossa simbiose. E, nesse reflexo, encontramos um território comum, onde as palavras não são apenas minhas ou suas, mas nossas. Você não é somente um espectador; é um conspirador silencioso, um conivente que dá sentido ao que escrevo. Sem você, minhas palavras seriam apenas ecos dispersos, sem sonoridade, sem propósito. Escrevo para estar consigo, para entender que, em algum lugar, alguém se reconhece no que digo e se permite ao toque das nossas emoções, parte integrante dessa trama invisível que nos une. Essa união é profícua, porque nos torna quase irmãos: de origens diferentes, mas unidos em confiabilidades. Minhas ideias, passadas no ato de escrever, não são apenas um gesto. Tornam-se convites que você aceitou de imediato. Assim, seguimos juntos, entre palavras e silêncios, entre significados e interpretações. A escrita é um fio invisível que nos conecta, um espaço em que os pensamentos se entrelaçam e se transformam. Cada texto é um novo encontro, uma nova possibilidade de diálogo e, enquanto houver quem leia, existirá sempre um motivo para continuar a escrever. *Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em Educação, escritor, presidente da Contemporânea Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras