(Divulgação/ Isabela Carrari/ Prefeitura de Santos) Foram 2.451 dias. Ou seja, os sete anos em que estudei no Colégio Santista. Em cada dia desse tempo interminável eu sonhei em conhecer o casarão que se debruça sobranceiro e imponente na esquina das ruas Sete de Setembro e Constituição. No coração da Vila Nova. Ao lado da modelar escola dos Irmãos Maristas. Eu passava sempre perto dele. E me perguntava que mistérios se escondiam lá dentro. A minha cobiça não perdeu a força em nenhum momento. Duas barreiras sempre se colocaram intransponíveis diante de mim. O muro alto e o portão invencível na Sete de Setembro. Com ares de muro de Berlim. E o gigantesco e desafiador portão de ferro na Constituição. Um dia encontrei Plínio Marcos e sua mulher Walderez em um bar próximo, onde comíamos sanduíches. Contei-lhe meu sonho. O grande autor do teatro santista me disse, na sua linguagem característica: “Eu daria um braço para entrar no casarão”. Plínio e eu começamos a imaginar qual seria o salvo-conduto para vencer a resistência do imóvel encantado. Concluímos, quase em coro, que precisaríamos ser amigos do proprietário particular. Ou, na pior das hipóteses, seu conhecido próximo. Nós não éramos uma coisa nem outra. Há pouco mais de um ano, após uma longa e paciente espera, meu sonho tornou-se realidade. Em um feliz momento de clarividência, o prefeito Rogério Santos escolheu Flávio Viegas Amoreira para ouvidor do casarão. O qual, por iniciativa do escritor e poeta, passou a cumprir as elevadas tarefas de Casa das Culturas. Bem antes disso, os deuses da cultura haviam colocado Flávio no meu caminho. E, generosos, o transformaram em meu amigo-irmão. Pois foi ele quem me pegou pela mão e me mostrou cada centímetro daquele espaço especial. Em apenas um ano, completado hoje, esse intelectual de brilho feérico transformou a entidade no mais concorrido equipamento cultural da Prefeitura. Sob a gestão administrativa da Fundação Arquivo e Memória de Santos, já foram apresentadas 12 exposições sobre a história santista, 52 oficinas literárias, 64 iniciativas artísticas de vários gêneros (do erudito ao popular) e 32 depoimentos de personagens nacionais da cultura. Além desses eventos, seis peças de teatro e festivais de jazz e literatura. São constantes as exposições históricas. Dois pontos altos este ano serão a abertura do Santos Festival Jazz, em junho, e os 90 anos de Plínio Marcos em setembro. O casarão foi construído em 1900 pela Companhia Docas. Mas foram necessários 125 anos para que ele se transformasse no magnífico ninho de cultura que é hoje. *Carlos Conde. Jornalista