Houve um tempo em que uma notícia precisava de vários dias para chegar. Entre quem escrevia e quem lia havia a espera, e talvez fosse justamente essa espera que desse às cartas uma densidade que hoje nos parece rara. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Escrever uma carta era mais do que transmitir uma informação. Era escolher palavras e confiar ao papel aquilo que, muitas vezes, não se conseguia dizer de outro modo. Havia nelas um gesto de aproximação: duas pessoas podiam compartilhar pensamentos, confidências e descobertas. A carta criava uma presença na ausência e, muitas vezes, prolongava a conversa para além das palavras. Não por acaso, o gênero atravessou séculos. As cartas de Paulo aos fiéis, a correspondência de Voltaire e Diderot e as missivas de Machado de Assis mostram que a carta pode transformar-se em documento, testemunho, memória e literatura. Em suas linhas, ficam registrados acontecimentos e maneiras de sentir e olhar o mundo. No século 19, a carta alcançou grande prestígio e tornou-se também espaço de intimidade e de elaboração do próprio eu. Quem escrevia revelava-se ao interlocutor e, de certa forma, também a si mesmo. Foi pensando nessa tradição e também reconhecendo o simbolismo do projeto, que aceitei o convite para participar da antologia Cartas a D. Pedro II – missivas comemorativas, lançada na última Bienal do Livro, em São Paulo. A obra reúne textos de diferentes autores e recupera, pela criação literária, a antiga forma epistolar, tendo como destinatário simbólico uma figura central da história brasileira. Minha carta está entre elas. Foi algo muito sugestivo escrever para alguém que pertence a outro tempo. A distância histórica transformou-se em possibilidade de diálogo, permitindo que o passado se encontrasse com as perguntas do presente. Pudemos dirigir perguntas à outra época, manifestar admiração, registrar inquietações e imaginar uma resposta que jamais viria. Na atualidade, o papel, o envelope, o selo e a espera foram substituídos pela instantaneidade das mensagens eletrônicas. E-mails e aplicativos mantêm viva a necessidade de comunicação, embora em outro ritmo. Não há mais o intervalo entre escrever e receber, entre reler e enviar, entre imaginar e esperar. Creio, porém, que as cartas ainda teriam muito a nos dizer, nos dias atuais. Em um mundo de mensagens breves e respostas imediatas, elas nos lembram o valor da demora, da palavra escolhida, da escuta e da memória. Uma carta não guarda apenas palavras. Guarda alguém no instante em que escreveu. E, quando volta a ser lida, faz o passado respirar novamente.