(Vanessa Rodrigues/ AT) Existem tardes em Santos que simplesmente se recusam a passar; permanecem pairando sobre a Rua XV, onde o cheiro do grão torrado se mistura à memória afetiva da Cidade. Quem conhece as histórias contadas no templo da Vila Belmiro sabe bem: a tradição santista tem nome e trajetória. Entre tantos, Barlettinha se destaca, de fala mansa e olhar incisivo. Serviu instituições que definem a comunidade: Santos F.C., Santa Casa e várias outras, carregando consigo o legado de uma era dourada. Incentivador do Clube do Choro e cantor de clássicos românticos a despertar emoções. Lembrar de Florival Amado Barletta é folhear um álbum intocado pela poeira do tempo. Em tempos desafiadores, esteve à frente de diversos cargos diretivos da agremiação alvinegra, e, com o mesmo brilho do olhar, fez das reuniões do órgão máximo do Peixe um encontro de coragem e união. Há, porém, um entardecer nessa história, como se tivesse sido pintado nas paredes do Santuário de Santo Antônio do Valongo. Foi ali, ajoelhado junto à Mesa da Eucaristia, que Florival trocou os votos de casamento. E nessa igreja, o destino decidiu brincar de eternidade. Entre os coroinhas que balançavam o turíbulo, um menino da Vila São Bento vestia a túnica litúrgica, e trazia no nome de batismo um prenúncio de craque antes de ser craque: Clodoaldo Tavares Santana. Pequeno órfão de pai e mãe, guardião do altar, cruzaria o planeta com a bola nos pés. Seria maestro da seleção de 1970 e voltaria sempre para casa, fiel à maresia caiçara. A vida, por vezes, rima melhor que os próprios poetas. O menino cresceu, virou lenda, trocou a batina pelo futebol e, num ciclo perfeito, sentou-se novamente diante daquele que fora um dos noivos de sua infância. Hoje, quando o Conselho Deliberativo se reúne, até o café nas xícaras parece silenciar para ouvir. Lá estão eles, lado a lado, discutindo o amanhã do Alvinegro Praiano: Barlettinha e Clodoaldo. Já foram noivo e coroinha; hoje, são amigos e dividem um novelo de lembranças. Olhar para os dois falando do Peixe é aprender, sem cartilha, o que é ser santista. É sentir o aroma da praça cafeeira se misturar ao incenso do Valongo e ao cheiro inconfundível da grama da Vila Belmiro. A amizade de ambos é um relicário: um laço fiado numa batina de infância e carimbado nas atas da história. A união desses dois gigantes ensina que viver é reencontrar. Pois o Santos não é apenas um time: é casa, é fé, é o café coado numa tarde que não quer ir embora. É um destino que começou num altar e, pela força da fraternidade, não conhece o fim. No encontro de ambos, entendemos que a história insiste em atravessar as gerações, porque o amor, tal qual a própria trajetória da cidade é eterno. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental