(Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil) O Brasil é a última coca gelada do deserto, mas parece não saber disso. Ou melhor, insiste em não acreditar nisso. Essa descrença no futuro é fruto da cultura do imediatismo, um comportamento que tem raízes em nossas origens. Nunca sofremos com intermináveis e rigorosos invernos, terremotos ou grandes guerras. Para garantir a sobrevivência, bastava plantar 365 pés de mandioca. E talvez essa seja a nossa “maldição”! Nos países do Hemisfério Norte, onde há neve e guerras, as pessoas precisam desenvolver estratégias de sobrevivência; pensando e decidindo racionalmente, desenvolvem naturalmente uma cultura de planejamento no longo prazo. Não por acaso, são sociedades mais ricas do que nós. O pensamento a longo prazo oferece mais soluções e oportunidades do que o imediatismo. Em clima de urgência, não temos controle do processo decisório e fazemos más escolhas. A cultura do imediatismo molda nossas crenças negativamente e passamos a desacreditar em dias melhores. Simplesmente nos contentamos em trocar o banquete de um futuro brilhante por migalhas no presente. Hoje, no Brasil, a educação é, de longe, a maior vítima do imediatismo, pois exige 10 ou 15 anos de sacrifícios contínuos antes que tenhamos a chance de desfrutar dos primeiros benefícios por ela proporcionados. Sem educação de qualidade, não há ganhos de produtividade; sem ela, não há crescimento econômico ou aceleração sustentável de prosperidade. O imediatismo nos leva a sermos exportadores de commodities, ao invés de pensarmos neste processo estrategicamente. Somos os maiores exportadores mundiais de mais de uma dezena de commodities, tais como: grãos, açúcar, café, carnes, fumo e celulose. Se agregássemos valor a estas mercadorias e aos recursos turísticos naturais inigualáveis que temos, essa mudança dobraria nosso PIB em 20 anos. Para tal, teríamos que acrescentar 2 a 3 milhões de técnicos à nossa força de trabalho. Isso requer aumento do desempenho educacional. Somos um dos últimos grandes países a ainda não passar pelo ciclo de crescimento educacional. Os países que passaram pelo ciclo ganharam aproximadamente 25 anos de crescimento de 5% ao ano, apenas devido aos ganhos de produtividade. Estudos americanos indicam que 80% dos nossos estudantes não atingem o nível básico do Pisa em leitura e matemática. Se atingíssemos esse patamar, acrescentaríamos US\$ 27 trilhões à nossa economia até o fim deste século. Precisamos começar a alinhar os interesses imediatistas dos nossos estudantes com os interesses de longo prazo do nosso potencial econômico. *Thaís Vieira de Souza. Escritora e autora de A Maldição da Mandioca