(Fundação Arquivo e Memória de Santos/Arquivo) Entre 1978 e 1985, o Brasil viveu um despertar vibrante. Foi o tempo em que o estalar das máquinas de escrever cedeu espaço à agilidade dos computadores, e o silêncio do autoritarismo acabou vencido pelo doce clamor da liberdade. Nas ruas, o povo recuperava o direito de sonhar sob o amarelo das “Diretas Já”. Em meados daquela década, a democracia era finalmente abraçada; contudo, vivíamos dias de peitos abertos e bolsos vazios. Foi justamente desse contraste — entre a escassez e o sonho — que o bairro do Gonzaga, palco das grandes comemorações, gestou seu próprio antídoto. No asfalto quente, o riso fez-se resistência e a irreverência tornou-se cura: nascia a Banda Mole. Quarenta verões depois, no crepúsculo de janeiro de 2026, esse espírito reencontrou sua morada definitiva. O projeto Santos é uma História selou um reencontro memorável, orquestrado pela intelectualidade de Flávio Amoreira e pelo talento do letrista de escol Geraldo Pierotti. A dupla converteu o Outeiro de Santa Catarina em solo místico para acolher os fundadores da Banda Mole, os baluartes Manecão, Eduardo Alexi e Zé do Bagre. Sob essa batuta lírica, as lembranças resgataram a gênese do bloco e a nobre razão do silêncio dos tambores que, após 21 anos de desfiles, guardaram seu ritmo para a eternidade do registro santista. A centelha, relembram aqueles que deram o primeiro passo, brotou da boemia da Rua Sá Ferreira, na mística Copacabana. A proposta era fundir o brio carioca ao sotaque local para “amolecer” as tensões no sábado de pré-carnaval. Naquele refúgio, o “dragão da carestia” perdia o fôlego; a única moeda corrente era a gargalhada, as fantasias audazes e o hino eterno: “Quem é do remelexo, quem é do bole-bole, sai na Banda Mole!” O ciclo oficial encerrou-se em 1998, após duas décadas de glórias — espelhando o tempo do antigo regime como um desabafo festivo que floresceu sob a redemocratização. O término ocorreu pelo próprio gigantismo: a multidão transbordou as ruas. Para preservar a essência, seus dirigentes transmutaram o movimento em recordação latente. Certas lendas prescindem das calçadas para serem imensas; elas passam a habitar a alma da coletividade. A Banda Mole carrega esse DNA: é a joia que, como um navio que parte, deixa saudades, ou um gol imortalizado, permanece na retina para sempre. Melhor dizendo: enquanto houver um coração no solo de José Bonifácio batendo no compasso das marchinhas, esse sentimento seguirá vibrando — altivo e eterno — na passarela infinita desta Santos que ensinou à pátria a liberdade e a caridade, sendo, por isso mesmo, lugar onde todos procuram a alegria de viver. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado, mestre em direito ambiental, membro das Academias de Letras e Ofícios da Praia Grande e de São Vicente e do Conselho de Minerva da UFRJ