[[legacy_image_308842]] Na última quarta-feira, o Palmeiras ganhou do Botafogo, de virada, por 4 a 3. Tal êxito foi possível, principalmente, pelo empenho do craque adolescente Endrick. Na contemporaneidade, muito se fala de machismo, racismo e outros preconceitos arraigados na cultura ocidental, que promovem a superioridade de uns sobre outros. Mas o adultocentrismo ainda é olhado com condescendência pela maioria. Logo após o jogo, os comentaristas lançaram jargões como “vamos parar de chamar de menino”, “atuação de gente grande” e outros enunciados atribuindo ao craque adolescente uma maturidade precoce, um comportamento de adulto. Independentemente das questões de evolução técnica do esporte, sugiro uma reflexão sobre as várias formas de pensar as crianças e adolescentes e questionar como naturalizamos a superioridade dos adultos sobre as crianças. A máxima da antropóloga Clarice Cohn é: “A criança não sabe menos, ela sabe outra coisa”. A atuação de Endrick foi elogiada por leigos, torcedores e comentaristas especializados. Numa dessas discussões, a imprensa destacava que o menino chamava a atenção por jogar “como gente grande”. O fato é que, para além das polêmicas futebolísticas, por que não inverter o pensamento? “Pensou como uma criança”, porque para ela ainda tudo pode. Geertz, antropólogo de referência da área, nos diz que nascemos com múltiplas possibilidades de viver qualquer cultura, contudo, ao sermos socializados em um determinado grupo social, durante tal processo, essas múltiplas possibilidades são reduzidas e direcionadas para os padrões da sociedade em que vivemos. É o que ocorre com crianças e adolescentes. Será que justamente por ainda ter essa possibilidade de poder o improvável, Endrick acreditou que podia tudo, até vencer um jogo que se dava por perdido, principalmente pela maioria dos adultos? Então, em vez de creditar a vitória à maturidade precoce do jogador adolescente, parte do êxito pode ser creditada justamente por ele estar imerso na cultura infantil, com todas as possibilidades abertas, inclusive as improváveis. Neste caso, justamente pelo fato de (ainda) Endrick não ter completado seu ‘upload’ na cultura adultocêntrica. Longe de profetizar uma autonomia absoluta por parte das crianças, pois a criatividade que se revela no talento futebolístico de Endrick é parte de um sistema compartilhado com o mundo dos adultos, essas ideias podem nos fazer pensar em relações mais simétricas, ao questionarmos a pretensa superioridade dos adultos sobre os mais jovens. Vale lembrar que o Rei Pelé foi campeão do mundo aos 17 anos. Ao final da partida, o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, deu entrevista e comentou a vitória mágica do time, um termo também usado por alguns jornalistas. Ora, não é justamente esse adjetivo que atribuímos à infância? Ser criança é mágico, e é essa magia que perdemos à medida que nos inserimos no mundo dos adultos. Se a vitória foi inexplicável, talvez seja porque realmente esteja na esfera da magia, um mundo em a que os adultos não têm mais acesso. Sem ela, talvez, o Palmeiras não tivesse virado o jogo.