(Reprodução) Ao longo da História, há numerosos fatos que mostram a reviravolta das opiniões sobre alguns vultos. É que a opinião de uma época muda com o passar do tempo. Cito três exemplos. O primeiro é Joana D’Arc. Nascida na região de Domrémy-la-Pucelle (França), tornou-se guerreira para expulsar os ingleses que haviam invadido a França. O rei da região se afastara para não ser aprisionado. Vestiu-se de homem, montou a cavalo e enfrentou os invasores. Aprisionada, foi entregue pelos ingleses ao Tribunal da Inquisição (1431), durante a chamada Idade Média. Durante seu julgamento, se defendeu dizendo que somente com traje de guerreiro e a cavalo poderia liderar tropas defensivas. O processo de Joana está no Arquivo Secreto do Vaticano, que de secreto não tem nada, pois é de consulta pública. Eu mesma já consultei o Arquivo do Vaticano duas vezes. Seu reconhecimento como guerreira chegou até o Estado do Vaticano, que a considerou Santa (1920). O segundo exemplo é o general Charles de Gaulle, comandante francês que enfrentou a invasão alemã na época em que nazistas eram chefiados por Adolf Hitler, em 1940 e terminou em 1945, período da Segunda Guerra Mundial, que começou com a invasão à Polônia, via capital Varsóvia. Presidiu a França por duas vezes, 1944 a 1946 e de 1959 a 1969. Charles de Gaulle comandou a França Livre (que não foi ocupada pelos alemães nazistas) e realizou um discurso pela Rádio BBC de Londres, incentivando o povo francês a não desistir da resistência. O terceiro é Alan Turing, matemático inglês que decifrou os códigos secretos nazistas e evitou a morte de, aproximadamente, 10 milhões de pessoas, impedindo o ataque de submarinos às Forças Aliadas, avisando-as de navios, submarinos e aviões alemães. Hitler mandou atacar a URSS e navios brasileiros que navegavam na costa entre Sergipe e Bahia, vindos dos Estados Unidos. Foi menosprezado por ser gay e não ter escondido isso. Julgado em Londres e submetido a uma operação para tirar parte da capacidade sexual, viveu pouco depois disso, mais ou menos dois meses, e suicidou-se. Seu reconhecimento foi posterior pelo governo inglês, através do Parlamento, que colocou seu retrato na cédula de 50 libras. Estes são três exemplos documentados de acusados de fatos considerados crimes na época e cujo reconhecimento posterior foi um resgate da história. Eles nos recomendam que, antes de julgarmos pessoas ou instituições, devemos pensar e lembrar da seguinte frase: não julgue para não ser julgado. *Wilma Therezinha Fernandes de Andrade. Mestre e doutora em História Social, historiadora e professora da Universidade Católica de Santos (UniSantos)