(Matheus Tagé/ Arquivo/ AT) Há algum tempo venho tentando escrever as diversas Santos existentes. Não a cidade dos mapas, mas a cidade vivida, feita de territórios que coexistem sem necessariamente se integrar. Santos não se explica pelo agora. Ela é resultado de decisões acumuladas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Santos não cresceu de forma espontânea. Ela foi sendo conduzida. E é nessa condução que se encontram seus maiores acertos e tensões. No início do século 20, a cidade enfrentou sua maior limitação com clareza técnica. Os canais não foram apenas drenagem, mas um projeto urbano estruturante, com integração entre engenharia e território. Décadas depois, a orla consolidou valor urbano, mas também concentrou investimento em uma faixa específica da cidade. Enquanto uma parte era planejada, outra era ocupada sob pressão. Morros e áreas de mangue cresceram acima da capacidade de estruturação. O Centro seguiu outra trajetória. De território de permanência, foi se especializando em funções econômicas. Hoje, não falta potencial, falta presença. Na mobilidade, um sistema antes integrador deu lugar a uma lógica fragmentada, mais dependente do deslocamento individual. Santos possui escala para caminhar e integrar, mas opera como se precisasse se deslocar longas distâncias. Essa contradição revela escolhas que ainda estruturam o cotidiano urbano. A verticalização respondeu à limitação territorial, mas sem redesenho suficiente da infraestrutura no solo. E há um elemento que atravessa todo esse percurso. A água. A cidade que soube enfrentá-la no passado agora precisa lidar com sua intensificação. Ao observar esse conjunto, um padrão se repete. Os avanços ocorreram quando a cidade foi pensada como sistema. As tensões surgiram quando decisões passaram a operar de forma isolada. Santos já demonstrou capacidade de planejar; o desafio é transformar essa capacidade em permanência. É dessa lógica que emergem as diversas Santos. A que concentra valor. A que sustenta o cotidiano. A que se adapta. A que se desloca sob pressão. Não são cidades diferentes. São efeitos de decisões tomadas em tempos distintos. O desafio atual não está na falta de diagnóstico. Está na capacidade de sustentar decisões integradas ao longo do tempo, com visão de continuidade. Porque cidades não se desorganizam de uma vez. Elas se desorganizam quando decisões corretas deixam de ser regra. “Santos já demonstrou que sabe planejar; o que definirá seu futuro será a capacidade de sustentar decisões que façam a cidade funcionar como um todo”. Alessandro Lopes. Arquiteto, urbanista, pesquisador em Inovação, Sustentabilidade, Infraestrutura Urbana e consultor Regional ICT Multiplicidades