(FreePik) Para nós, falantes da Língua Portuguesa, “saudade” é uma palavra que carrega sentimento profundo e singular que outras línguas não conseguem capturar em uma única expressão, uma vez que reflete uma mistura complexa de emoções, nostalgia e melancolia. A saudade, sentimento visto por alguns como piegas, “démodé” e em desuso, nem sempre remete a acontecimentos tristes, pois transcende as barreiras da linguagem. Sentimento que habita o coração dos que já amaram, perderam e sonharam, a marca indelével da presença que se ausentou, as risadas que se dissiparam no tempo. Ou seja, está intrínseco nas pequenas coisas: no perfume que persiste no ar após a partida, na musica que toca e traz à tona a imagem de um velho amigo, na quietude de uma casa que já foi cheia de vida. Contraste entre a alegria das lembranças e a dor da ausência, o sorriso que brota ao recordar de momentos felizes e a lágrima que escorre pela face ao constatar que esses momentos não retornarão. Poetas e compositores são mestres na arte de transformar sentimentos em palavras. Encontram na saudade uma fonte inesgotável de inspiração. Fernando Pessoa, com sua sensibilidade aguçada, capturou a essência da saudade em textos que ainda hoje ressoam com a força de sua verdade emocional. Carlos Drummond de Andrade, por sua vez, explorou as facetas da saudade em poemas que são espelhos da alma brasileira. Na música, linguagem universal que fala diretamente ao coração, também encontramos a saudade. Cesária Évora, deu voz à saudade dos cabo-verdianos em “Sodade”, autoria reconhecida de Armando Zeferino Soares. É uma canção que fala de separação e do anseio por um lar distante. A música “Desfado”, composta por Pedro da Silva Martins e interpretada por Ana Moura, traz uma nova perspectiva sobre a saudade. É a que aceita a tristeza, celebra a beleza da vida e a doçura das memórias felizes: “...Ai que saudade, que tenho de ter saudade, saudades de ter alguém, que aqui está e não existe. Sentir-me triste, só por me sentir tão bem, alegre sentir-me bem, só por eu andar tão triste”. A saudade é um paradoxo. Dor da ausência e o conforto da memória, tristeza do que se foi e a alegria do que foi vivido. Testemunho do impacto que outros têm em nossas vidas, uma prova que, mesmo quando alguém se vai, o amor permanece, eternizado nas páginas de uma crônica, nas estrofes de uma canção e de um verso. Vale lembrar, o presente é efêmero, existindo por meros milésimos de segundo antes de se tornar passado. Cada ação, pensamento e sentimento rapidamente se transforma em memórias. Engraçado, enquanto escrevo estas palavras, elas já pertencem ao passado, tornando-se lembranças que, por vezes, se manifestarão como saudades. Exemplo disso, Carlos Drummond de Andrade sugere que, embora as coisas tangíveis possam desaparecer, as lembranças e os sentimentos permanecem vivos e belos, da maneira que conta o poema “Memória”: “Amar o perdido deixa confundido este coração. / Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. / As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. / Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Hoje, tive um diálogo íntimo com essas saudades, falando com as sombras daquilo que já foi, num sussurro continuo com o tempo. *Jardel Pacheco. Escritor, ativista cultural e diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais