[[legacy_image_259539]] Em 8 de abril de 2023, completaram-se 96 anos da morte de Paulo Gonçalves. Recordá-lo é conhecer um santista que, em 30 anos de vida, enriqueceu a Cultura brasileira. Sua vida e obra são documentários do cotidiano do Brasil, na primeira metade do século 20. Paulo, criança, viu exemplar de Os Lusíadas ilustrado com uma lira e não entendeu a ligação do instrumento com a poesia. Adulto, decifrou o mistério: “as cordas que espedacei espiritualizaram: saudade, amor e sofrimento. Desvendei o mistério da lira”. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Era filho de Maria Bemvinda Gonçalves Fogaça, filha de Maria Patrícia Fogaça, renomada parteira, nome de escola infantil, em Santos. Francisco de Paula Gonçalves nasceu em 2 de abril de 1897, à Avenida Senador Feijó, 40. Além de estudar em boas escolas, teve formação cultural do pai, Manoel Alexandre Fogaça, mas, de família pobre, foi trabalhar criança entregando telegramas. Pressionado pela vida difícil, trabalhou em várias frentes: escritórios comerciais, bancos e três jornais em Santos, incluindo A Tribuna. O jornalismo é sua segunda casa. Em São Paulo, foi redator-secretário da Folha da Manhã e trabalhou em O Estado de S. Paulo. Mas destaca-se com Yara (1922), livro de versos publicado caprichosamente pelo Instituto D. Escolástica Rosa. Convive com os intelectuais da época: Ruy Ribeiro Couto, Benedicto Calixto, Afonso Schmidt, Delphino Stockler de Lima, Ranulpho Prata, Martins Fontes, que escreveu: “Ele, Paulo, era melhor poeta do que ele”. Sua glória brilhou ainda mais com a peça 1830, de franco sucesso em São Paulo e várias cidades, em especial em Recife, e que mereceu prêmio pela Academia Brasileira de Letras. Em homenagem a Cleómenes Campos, um grupo se reuniu em 1923, na hoje Praia Grande: Monteiro Lobato, Martins Fontes, Galeão Coutinho, Mariano Laet Gomes, Arquimedes Bava, Guilherme Gonçalves, Alberto Souza, Heitor de Moraes, Paulo Gonçalves e Amilcar Gonçalves, sobrinho de Paulo. Voa a imaginação neste simpósio, não à moda grega, mas à brasileira, com feijoada e, como bebida, a cachaça Morrão, de Santos. A Semana de Arte Moderna dá uma sacudida na literatura, a partir de 1922, mas não entusiasma Paulo Gonçalves. Faz poesia sobre tópicos da História do Brasil e, romântico frustrado, com o amor não correspondido, faz As Mulheres não Querem Alma. Viaja pelo Nordeste e o ambiente rural o inspira para a comédia As Noivas (1923), onde faz versos sobre as mulheres-rendeiras. Em 1924, morou em São Paulo, com Cléomenes Campos, que o incentivara a ir para o Nordeste. Conheceu o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Sua obra é numerosa: Núpcias de D. João Tenório, Quando as Fogueiras se Apagam, O Juramento e Lírica do Frei Angélico. Foi inovador na peça A Comédia do Coração (1925), com as emoções como personagens: Alegria, Paixão, Dor, Razão, Sonho, Medo, a Desconhecida, Ciúmes, Ódio. Grande Sucesso! Bondoso, era chamado de Poeta do Coração. Interessou-se pela política. Otimista, fundou o Partido da Mocidade (1925), contra processos de corrução. Não durou muito... Paulo Gonçalves recebeu numerosas homenagens em Santos. É Patrono da Academia Santista de Letras, onde tenho a honra de ocupar a cadeira 22. Entre homenagens, há uma nos jardins da praia, na Av. Bartolomeu de Gusmão, defronte o número 43; nela, uma lira lembra sua inspiração. Morreu em Santos, aos 30 anos, tendo como lema de vida “nada mais que o coração na arte”.