<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-end="593" data-start="142" dir="auto">Especialistas em comportamento humano costumam observar que líderes megalomaníacos raramente chegam ao poder pela força do medo. Normalmente, chegam pelo encanto. São carismáticos, eloquentes e capazes de convencer multidões de que representam a solução para todos os problemas. O detalhe curioso é que nós, cidadãos comuns, continuamos demonstrando enorme dificuldade para distinguir verdadeiros líderes de personagens apaixonados pelo próprio poder.</p> <p data-end="852" data-start="595" dir="auto">Alguns desses personagens acabaram condenados pela história e hoje são lembrados como grandes tragédias da humanidade. Outros, porém, seguem protegidos por narrativas políticas, ideológicas ou nacionais que transformam seus erros em detalhes inconvenientes.</p> <p data-end="1483" data-start="854" dir="auto">Hitler, o exemplo mais evidente, deixou um legado de destruição amplamente reconhecido, inclusive pelos alemães, que tiveram a coragem de confrontar o próprio passado. Mas a coerência histórica nem sempre acompanha a indignação moral. Winston Churchill, frequentemente tratado como herói da democracia, deixou declarações que hoje seriam consideradas escandalosas. Stalin e Mao Tsé-Tung, responsáveis por regimes que custaram milhões de vidas, ainda encontram admiradores. A lista poderia incluir Napoleão, Tito, Pol Pot e vários outros líderes cuja reputação parece depender mais de quem conta a história do que dos fatos em si.</p> <p data-end="1837" data-start="1485" dir="auto">A humanidade jamais sofreu escassez de megalomaníacos. O problema não é apenas a existência deles, mas a facilidade com que são transformados em heróis. O que garante essa promoção? Vencer uma guerra? Escrever os livros de história? Ou simplesmente contar com seguidores suficientemente fiéis para negar qualquer evidência inconveniente durante décadas</p> <p data-end="2392" data-start="1839" dir="auto">Os métodos de dominação mudaram com o tempo. Se antes dependiam de exércitos e canhões, hoje podem ser exercidos por meio da informação, da propaganda e da construção de narrativas. Vladimir Putin ainda envia soldados para uma guerra de custos humanos evidentes, enquanto Xi Jinping, Trump e Lula são frequentemente acusados por críticos de utilizar mecanismos de dependência política e discursos ideológicos para consolidar poder e influência. As circunstâncias são diferentes, mas a lógica da permanência no poder continua surpreendentemente familiar.</p> <p data-end="2729" data-start="2394" dir="auto">O mais impressionante é que tudo isso acontece em pleno século 21. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ainda assim, continuamos dispostos a acreditar que alguns salvadores da pátria são incapazes de errar. Talvez a megalomania não seja o fenômeno mais fascinante da história. Fascinante mesmo é a nossa disposição de aplaudi-la.</p> <p data-end="2787" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2731" dir="auto">*William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor</p>