(Alexsander Ferraz/ AT) Por ter vivido a minha infância numa cidade do interior, recordo-me que as ruas eram todas de terra batida. Em tempos secos, com a ação do vento e o tráfego de veículos, levantavam muita poeira. Quando chovia em demasia, suas longas enxurradas causavam lamas e valetas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Definido como prioritário, as avenidas do centro da cidade começaram a receber uma pavimentação com paralelepípedos, tidos como blocos de rocha dura no formato retangular. No decorrer do tempo começou a chegar também nos bairros. Com o calçamento das ruas, vieram os bueiros no final dos quarteirões, para o escoamento das águas da chuva. Aos veículos, a poeira e a lama deram lugar aos solavancos. Acompanhando a evolução, as calçadas de terra batida, demarcadas por guias de concreto, começaram também a receber o calçamento. As calçadas revestidas com pedras portuguesas nos tons claros e escuros, formavam um mosaico que em paralelo com as ruas de paralelepípedos, se completavam e harmonizavam. Aos transeuntes, um caminhar mais seguro e limpo para os sapatos. No tocante as diversões, as crianças passavam o dia todo ao ar livre, brincando nas ruas, calçadas e quintais. Valorizavam a criatividade, o convívio social e o uso de materiais simples, como caixas de papelão, latas e potes, palitos de sorvete, barbante, papéis coloridos, elásticos, botões de roupa, tampinhas, giz de cera, prendedores... A garotada ocupava o tempo de forma agradável, sem ter a necessidade de tantos brinquedos industrializados. A diversão consistia em bater bafo para virar figurinhas, soltar pipas em dia de vento, disputar bolas de gude mirando um buraco na terra, andar sobre latinhas suspensas por barbante, jogar futebol de botão... Andar de bicicleta, carrinhos de rolimã, jogar bola na rua, soprar bolhas de sabão com canudos, rolar pneus velhos, soltar barquinhos de papel na enxurrada. Brincar de rodar pião, passar anel, esconde-esconde, queimada, amarelinha, cabo de guerra, dono da rua, pega-pega, balança caixão, bambolê... Entre outras brincadeiras e algazarras, relembro da correria em busca do vendedor de algodão-doce, pé de moleque, biju, quebra-queixo, balas de coco. Do sorveteiro, bucheiro, padeiro, lixeiro. Da correria apostando corrida até chegar no empório, quitanda ou açougue, para comprar alguma coisa a pedido de nossas mães. Com o passar do tempo surgiu o asfalto, um tipo de concreto betuminoso usinado a quente, para ser usado na pavimentação das ruas e na elaboração de lombadas. Os paralelepípedos foram aos poucos sendo retirados ou encobertos pelo asfalto. Aos saudosistas um desabafo: “Adeus, ruas de paralelepípedos!” Carlos R. Ticiano. Bacharel em Direito, articulista e romancista