(FreePik) Em um domingo, 17 de maio, em São Paulo, durante a celebração do aniversário de 60 anos da Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil e cerimônia de premiação do 40º Concurso Literário Yoshio Takemoto, uma tarde especial: reencontro a senhora Keiko! Voltam à lembrança outros momentos premiando a imigrante japonesa, pioneira na composição de tanka no Brasil (tan, “curto” e ka, “poema”), que é um poema japonês “curto”. Historicamente, tanka é uma forma de poema lírico imagético, que no sentido amplo tem a forma básica da poesia japonesa. Seria como a canção do Japão. Assisti várias festividades da Nikkei Bungaku do Brasil, prestigiando escritores e poetas de vários estados, recebidos pela docente e pesquisadora em Língua, Literatura e Cultura Japonesas, Neide Nagae. No tablado, a harmonia entre os arranjos de flores (Ikebana) e o vazio (Ma) é um convite à uma meditação visual. Diferentemente do estilo ocidental, que busca simetria e volume, a arte japonesa celebra a assimetria e o espaço não preenchido. O vazio não é uma falta, mas uma potência onde a mente respira. É desse vazio que partem os traços com que o Zen – visão da realidade que desafia a compreensão lógica –, na isenção de todo o sentido, escreve os jardins, os gestos, as casas, os buquês, os rostos... E no palco de madeira, Keiko levantava-se com elegância e beleza, parecendo uma garça... Passos firmes, mas leves, sem qualquer barulho, caminhava para receber o prêmio e agradecer, curvando-se graciosamente. Hoje, a senhora Keiko chega de cadeira de rodas conduzida por seu filho. O corpo, um fiapo de algodão, tão magro e leve, parece que vai sumir a qualquer momento. As mãos paralisadas nos braços da cadeira. E nas placas de apoio, os pés imóveis. Ah... Mas seus olhos brilham! Percebo que falam, pelo menos para mim. No momento em que o coral canta Paz do meu Amor, a plateia acompanha. “Você é isso/Uma nuvem calma/No céu de minh'alma/É ternura em mim/Você é isso/Estrela matutina/Luz que descortina/Um mundo encantador nossos olhares se cruzam”. A voz do coração é a ponte para o diálogo, pois somos duas poetas que se dedicam à literatura japonesa, onde o silêncio fala. O mundo mudo é nossa única pátria, escreveu Francis Ponge. Ao final do evento, o coral canta o Kimigayo, hino do Japão. A letra é um antigo poema waka anônimo do período Heian (794–1185), que celebra a longevidade e o reinado do imperador. A unidade do texto está no destino... O destino deste texto é a senhora Keiko, para celebrar sua longevidade no transitório viver e louvar sua arte minimalista de manusear palavras. Sinto na pausa, no silêncio e na contemplação que a transformação aparece! *Regina Alonso. Pedagoga, escritora, membro das academias Santista de Letras, Vicentina e Praia-Grandense de Letras Artes e Ofícios