Em média, uma vez por ano, minha esposa e eu renovamos as baterias com um banho de cultura em algum país que parece ter encontrado o manual de instruções que o nosso tão judiado Brasil insiste em perder. Desta vez, fomos à Estônia, um dos países bálticos que, após o colapso da União Soviética, mostrou como é possível se recuperar de décadas sob uma ditadura autoritária. Mas deixemos a Estônia para outra ocasião. Desta viagem, trouxe uma história interessante sobre alguém que conhecemos em Tallinn, a capital do país. Almoçávamos no interessantíssimo mercado municipal quando compartilhamos a mesa com um turista malaio, radicado no Reino Unido, onde leciona em Oxford. Com passagens pela própria Universidade de Oxford e por Frankfurt, na Alemanha, era alguém com boa formação e visão de mundo. Conversamos sobre a Europa, o Sudeste Asiático e, naturalmente, o Brasil. Ele quis saber como andava nossa economia e qual era o maior problema do país. Respondi que continuava mal conduzida, sobretudo quando comparada à de outros países em desenvolvimento, como a própria Malásia. Mas confessei que nossa maior chaga continuava sendo a corrupção, que atravessa a política e contamina parcelas da sociedade. Foi então que veio a pergunta, com ares de quem acabara de solucionar o mistério: “Ah! Bolsonaro, né?” Respondi que sim, Bolsonaro também. Sob seu governo, a corrupção continuou presente, mas disse que o presidente agora era outro. “É de esquerda ou de direita?”, perguntou. “De esquerda”, respondi. A réplica veio rápida: “E mesmo assim é corrupto?” Foi aí que percebi a dificuldade de explicar a situação brasileira. Como contar a um estrangeiro que, por aqui, a corrupção não respeita fronteiras ideológicas? Transita pela esquerda, pela direita e pelo centro, sem esquecer os três Poderes da República. Em geral, lá fora a política é uma disputa entre diferentes projetos de país. No Brasil, virou um campeonato em que cada torcida denuncia as faltas do adversário, mas encontra justificativas para as infrações do próprio time. O mais grave talvez nem seja apenas a persistência da corrupção, mas a naturalidade com que passamos a conviver com ela. Como se governar exigisse, além de ministros, orçamento e planejamento, uma dose regulamentar de irregularidades. Naquele almoço em Tallinn, percebi que talvez a parte mais difícil de explicar ao meu amigo malaio não fosse a corrupção brasileira, mas nossa capacidade de reconhecê-la nos adversários e encontrar desculpas para ela nos aliados. Receio que, na próxima viagem, o Brasil ainda me obrigue a dar muitas explicações. *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor