(Pixabay) Ao longo da década de 1920, o Brasil vivenciou uma expressiva influência de correntes musicais estrangeiras, oriundas de países como França, Inglaterra, Japão, Itália, Estados Unidos e de diversas nações latino-americanas. Tais influências desempenharam papel relevante na ampliação e enriquecimento da diversidade sonora nacional. Enquanto certos estilos estrangeiros ganham espaço e reconhecimento, os gêneros musicais originários de países africanos seguem à margem do cenário brasileiro. Assisti a um documentário na Rádio e Televisão de Portugal (RTP) sobre os gêneros musicais dos países africanos. Dentre os citados, conheço o Highlife, o Soukous e a Morna. Percebi que a manifestação dessas tendências é bastante restrita na música brasileira. Pode-se atribuir essa baixa difusão à falta de divulgação e à concorrência com outros estilos musicais, mais do que ao preconceito, considerando que a música brasileira é profundamente influenciada por diversas culturas, inclusive a africana. A Morna, gênero musical de Cabo Verde, ainda pouco conhecido entre os brasileiros e reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, representa uma expressão profundamente marcada pela nostalgia, introspecção e riqueza poética. Em sua estrutura melódica e harmônica, é possível identificar afinidades com gêneros brasileiros como o chorinho e o samba-canção. Assim como o chorinho, a Morna valoriza a execução instrumental refinada, com destaque para o violão e o cavaquinho, e compartilha com o samba-canção a temática emocional, muitas vezes centrada na saudade, no amor e na solidão. Essa proximidade estética revela não apenas uma convergência musical, mas também uma conexão histórica e cultural entre Brasil e Cabo Verde, mediada por fluxos migratórios, trocas coloniais e afinidades atlânticas. A África é um continente diverso, com 54 países, múltiplas línguas, culturas e religiões, do cristianismo e islamismo às tradições ancestrais africanas. Desmistificar a ideia errônea de que a África é um país é essencial para revelar a sua riqueza e complexidade. A invisibilidade musical é sintomática de um problema mais amplo: a forma como a África é representada, ou silenciada, nos espaços de formação, como a escola. A abordagem curricular sobre a história e cultura africana nas escolas brasileiras precisa ser revista com urgência. Reduzir o continente à História da África e à Cultura Afro-Brasileira ignora sua amplitude cultural. É essencial incluir as múltiplas identidades, tradições e contribuições africanas para o mundo e para o Brasil, abrir espaço para as vozes, os saberes e as histórias que ainda não foram contadas, e valorizar essa diversidade, seja na música ou na educação, como caminho para construir uma sociedade mais consciente, plural e antirracista. *Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios