(Max/ Arquivo) Ao ouvir minha seleção musical, deparei-me com a canção Black is Beautiful, composição de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, interpretada pela maior cantora do Brasil, Elis Regina. A música soa em minha mente como um lembrete de tempos passados e presentes, cantada em uma época em que não se podia falar muito, mas que se falava de tudo, com cautela. Era um grito quase silencioso, uma resistência melódica, uma chamada à ação e um convite à reflexão, contra os censores da arte. Creio que, quando a humanidade aprendeu a se comunicar verbalmente, passou a explorar sons ao seu redor e iniciou o trabalho sonoro, intuitivamente. A música, provavelmente, surgiu da necessidade de transmitir sentimentos e emoções que as palavras não conseguiam abarcar. Com o tempo, esses sons foram se aprimorando, refinando-se, ajustando-se e evoluindo para se tornarem canções. Ao longo dos séculos, a música evoluiu de formas inimagináveis. Desde os cantos gregorianos até as sinfonias clássicas, passando pelo jazz, rock, pop e tantos outros gêneros, cada época trouxe consigo uma nova maneira de interpretar e sentir a música. A cada geração, a música continua a se reinventar, sem nunca perder sua essência. Atualmente, grande parte das composições carece de riqueza poética. As letras de hoje parecem desprovidas de metáforas envolventes, métrica cuidadosa e aquela poesia, que uma vez elevou a música a outro patamar. Essa pobreza nas composições resulta em canções que, muitas vezes, retratam um cotidiano banal e vulgar, deixando de lado a profundidade e a beleza que poderiam tocar os corações dos ouvintes. Em outros tempos, a música era repleta de simbolismos e lirismo, capaz de contar histórias, provocar reflexões e emocionar profundamente. Hoje, parece que essa arte foi deixada de lado em favor de uma simplicidade que não faz jus ao potencial expressivo da boa música. O uso de metáforas é outro ponto fraco nas composições atuais. Elas enriquecem a linguagem e tornam as mensagens mais impactantes. Sem elas, as músicas se tornam diretas demais, perdendo a capacidade de criar imagens mentais e sensações profundas nos ouvintes. A música é uma forma poderosa de arte que pode elevar a alma e transformar o comum em algo extraordinário. É necessário um resgate da beleza poética, da métrica cuidadosa e das metáforas ricas para voltar a encantar, inspirar e emocionar. Como em Black is Beautiful, devemos lembrar que, em um mundo no qual as diferenças de atitudes podem distanciar pessoas, será preciso não esquecer que somos acordes de uma só melodia. *Jardel Pacheco. Escritor, ativista cultural e diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais