(Unsplash) A conversa seguia acalorada. Irritada, eu abanava a cabeça feito um cão obediente. Logo eu, neta de imigrantes espanhóis e filha de brasileiros amorosos, tive que trancar a boca e ainda escutar: Não adianta ranger os dentes! Escutamos daqui, nós os Silva europeus, não estes Silvas brasileiros, que crescem feito capim! Ah, fossem vivos meu pai e a terceira filha, teriam a réplica perfeita. Pai órfão se criara por si e aos dois irmãos. A mana dedicada aos desprotegidos. Eu, no entanto, continuava muda diante das provocações: Alonso é mato nesta Santos! Parece Silva, Silva brasileiro, é claro! Súbito a chuva, como se o céu num jorro d’água se abrisse sobre nossas cabeças, pronto para nos tragar. Que providência divina, logo em frente, a padaria e seu toldo. Pela vidraça, o ambiente acolhedor me fez entrar. Pedi um café e um pão na chapa. Logo os amigos (?) em fila repetiram o pedido, sem deixar de lado a ironia: olha que o judeu não se move. Com certeza à espera de quem lhe ofereça. Distanciei-me, ocupando a mesa exatamente num ângulo grudado à parede. Saudade da minha mãe... Saudade do seu chá com pão da Rio Vouga e bolo de buraco no meio. Chá da tarde, juntando os de casa, a vizinhança e quem mais subisse os 13 degraus de madeira, sentando-se à mesa. Tardes alongadas, a realidade virando outra coisa. Às vezes, virando do avesso. A mulher do compadre não mais comparecia. Imóvel na cadeira da varanda, desde que descobrira a traição do marido com a melhor amiga. Sentiu-se vazia, sem papel. E que não viessem com orações à Virgem Maria e aos três anjinhos aos pés! Entorpecida arrancara a trindade, tentando vencer a nostalgia. Engordando, uma pedra transformada em rochedo, quem sabe para resistir aos comentários: Uma tonta! Ridícula! – diziam as más línguas, empurrando suas mazelas para baixo do tapete. Episódios pitorescos eram o assunto principal dos fuxicos ao portão. A sacristã que se apaixonara pelo padre, colecionando santinhos bentos e segurando o andor nas procissões. Até que o amado pediu dispensa das obrigações sacerdotais e do celibato porque ia ser pai. A sacristã desmaiou na igreja, ao saber que havia outra, e grávida! No pátio da igreja, as linguarudas exultavam: quem mandou enfeitar o altar com rosas, sem tirar os espinhos? Próximo à Vila Nova fica o Cemitério do Paquetá. Nem aos mortos as bisbilhoteiras dão sossego. À chegada do féretro, põem-se em bando feito aves de rapina, a voz baixa, às vezes, nem tanto: São Pedro vai deixar o sovina entrar no céu? A viúva chora, mas com que intimidade o cunhado lhe enxuga as lágrimas... A terra vai abrir as mandíbulas e tragar esse agiota! Hoje faltou luz no prédio. Subo 14 andares. Respiro fundo, solto o ar devagar, lembrando a “máquina de fazer espanhóis” e alguns lances vividos ou imaginados por mim. Obriga *Regina Alonso. Escritora, membro das academias Santista de Letras, Vicentina de Letras, Artes e Ofícios e Letras, Artes e Ofícios de Praia Grande