[[legacy_image_312540]] Realizei há algum tempo teste de DNA para descobrir minhas origens. Não tive grandes surpresas: mais de 50% da minha composição genética vem da Península Ibérica, em razão de meus antepassados portugueses e espanhóis, e quase 40% do Norte Europeu e Europeu Ocidental, de onde vieram trisavós alemães e suíços. Mas fiquei sabendo que tenho 1,4% de DNA judeu ashkenazi (da Europa central e ocidental). Convivi ao longo da vida com muitos judeus, alguns meus amigos. Sofri influência da cultura judaica, e li muitos livros e assisti a vários filmes que narram os dramas e tragédias que esse povo sofreu ao longo da história. Em contrapartida, meus contatos com árabes (e muçulmanos) foi mínimo. Faço essa introdução para deixar claro que compreendo, respeito e me horrorizo com as perseguições a que o povo judeu foi submetido, que teve seu ápice no Holocausto da Segunda Guerra Mundial. Mas isso não me impede de buscar posição isenta a respeito do atual conflito que opõe o Estado de Israel e o grupo Hamas. Fico estarrecido com o uso ideológico que vem sendo feito por esta guerra. Direita e esquerda se contrapõem, e escolhem seus “lados”, de maneira parcial e facciosa. A esquerda acusa Israel de massacrar os palestinos da Faixa de Gaza, mas seus seguidores não dizem uma só palavra contra os atos terroristas cometidos pelo Hamas no dia 7 de outubro. A direita, por sua vez, concentra seus argumentos na legítima defesa israelense, sem levar em conta a evidente desproporção do contra-ataque que vem provocando milhares de mortos, entre os quais a maioria é composta por civis, principalmente crianças. A realidade mostra que, de um lado, há o terrorismo do Hamas que deve ser condenado com vigor, mas, de outro, ação absolutamente injustificável do Estado de Israel que, principalmente nos últimos anos, deixou de lado qualquer tentativa de acordo com os palestinos. Em vez de fortalecer a Autoridade Palestina como legítima interlocutora (como foi desenhado em acordos de paz mais antigos), os governos israelenses têm radicalizado, incentivando assentamentos na Cisjordânia e sitiando a Faixa de Gaza, onde o controle é do Hamas. E agora, insensível a pressões da comunidade internacional, despreza princípios elementares do Direito Humanitário e ataca, com violência, sem considerar nenhuma consideração de cessar fogo para evitar milhares de mortos inocentes. A única saída lógica para o histórico conflito árabe-israelense é a criação de dois Estados na região. Isso avançou nos anos 1990, mas se tornou letra morta agora. O resultado é o terror, a guerra, o conflito sem tréguas, que não se esgotará. Perguntaram-me qual era, enfim, a minha opinião a respeito dessa tragédia. Fico com o secretário-geral da ONU, António Guterres. Suas palavras foram perfeitas: condenou inequivocamente os horríveis e sem precedentes atos terroristas do Hamas, mas ressaltou que o que aconteceu tem suas raízes em longas décadas de conflito com os palestinos. Os ataques do Hamas não aconteceram no vácuo, segundo ele, uma vez que o povo palestino foi sujeito a 56 anos de ocupação sufocante. Mas arrematou, com propriedade, “as queixas do povo palestino não podem justificar os horríveis ataques do Hamas”. E enfatizou que “esses ataques horrendos não podem justificar a punição coletiva do povo palestino”.