[[legacy_image_333090]] A palavra incumbente tem origem no inglês (incumbent) e designa o titular de um cargo político, como prefeito ou governador. Estudos e pesquisas mostram que eles, quando concorrem à reeleição, levam grande vantagem sobre os opositores. Basta olhar alguns números: em 2020, nas eleições municipais brasileiras, o índice de reeleição foi 77%; para o próximo pleito, em outubro, considerando as 26 capitais de estados, 18 prefeitos devem buscar manter-se nos cargos e só em duas (Belo Horizonte e Goiânia) eles não estão bem colocados nas pesquisas de intenção de voto. Onze lideram e cinco estão no páreo para o 2º turno. A influência dos grandes líderes (leia-se Lula e Bolsonaro, em campos opostos) é, portanto, bastante limitada. Nas cidades, notadamente menores, que são a imensa maioria, a disputa é local, e não reproduz a atual polarização política. É fato que nos municípios maiores os grandes temas e as posturas ideológicas tendem a influenciar o voto, mas pesa, de maneira substancial, a avaliação que os eleitores fazem dos atuais prefeitos. E não me venham dizer que tudo isso é consequência do instituto da reeleição, aprovado no Brasil desde 1997. Uma visão simplista é aquela que, proibida a reeleição, tudo se resolveria: não haveria mais uso da máquina governamental pelos incumbentes e o equilíbrio nas disputas estaria garantido. Nada disso: todo prefeito (ou prefeita) quer fazer o sucessor e emprega todos os recursos para tal. É evidente que um prefeito desastroso, pessimamente avaliado pela população, terá dificuldades para se reeleger. Mas se seu desempenho for considerado pelo menos regular ou mediano, podem apostar que suas chances de sucesso serão sempre muito altas. É, portanto, equívoco muito grande imaginar que o apoio explícito de Lula ou de Bolsonaro, neste ano, pode fazer a diferença e garantir a eleição de alguém. Em 2020, com Jair Bolsonaro na presidência, de 16 candidatos a prefeito apoiados explicitamente por ele, só cinco se elegeram. Entre os candidatos a vereador, o balanço é ainda pior: de 45 nomes que tiverem o endosso de Bolsonaro só 10 se elegeram. Ou seja, somando os 61 candidatos bolsonaristas, o índice de sucesso foi de apenas 25%. Não quero com isso dizer que o eleitor não analisa o perfil dos candidatos, levando em conta sua trajetória e suas ideias políticas. Há, sim, principalmente nas cidades médias e grandes, o tradicional confronto: direita x esquerda, com posições opostas. De um lado, visão mais conservadora, com ênfase em valores tradicionais, segurança, liberalismo extremo; de outro, postura mais progressista, com destaque para as questões sociais, como saúde, educação, meio ambiente, com papel importante para o Estado na solução desses problemas. Bolsonaro e Lula não são definidores das eleições municipais. Têm capital político e influência, daí vários candidatos buscarem seus apoios. Eu diria que esse é um fator a considerar na opção do voto, longe de ser o principal. Pesarão muito mais o desempenho da atual administração, as trajetórias políticas dos vários candidatos e suas propostas para as cidades. As campanhas eleitorais sempre são decisivas: erros, equívocos e mensagens não compreendidas podem destruir candidatos. Mas, repito: apostar na polarização como estratégia principal será erro monumental.