[[legacy_image_342592]] Até bem pouco tempo, a falta de mobilidade social fazia com que filhos assumissem obrigatoriamente as profissões dos pais. Sobretudo a partir do século 20, o trabalho passou a ser um meio de evolução social, e muitos pais passaram a financiar, até com sacrifício pessoal, os estudos necessários para que os filhos pudessem realizar suas vocações. Na medida em que a educação pública foi sendo democratizada e dotada de bons professores, conceder tempo para os filhos estudarem já era boa parte desse processo. Eu e meus irmãos vivemos esse processo, nos anos de 1960 e 70. Até o então Ginásio, nós nos dedicamos apenas aos estudos, com o incentivo de meu pai, eletrotécnico formado no antigo Ginásio técnico, na Escola Escolástica Rosa; e de minha mãe, costureira que estudara até o antigo Primário, no Grupo Escolar Cesário Bastos. Meu irmão mais velho cursou Colegial Técnico de Contabilidade, e já começou a trabalhar desde o início; meu outro irmão preferiu cursar Colegial não profissionalizante, mas começou a trabalhar com vendas desde os 14 anos. Eu, bem mais jovem do que eles, poderia ter seguido os passos de meu pai, fazendo o Colegial Técnico em Eletrotécnica. Afinal, ele dispunha de ferramentas e materiais que permitiriam aprender na teoria e na prática. Mas senti amor à primeira vista quando vi que o então Colégio Técnico Industrial de Santos tinha o curso de Edificações. Em nenhum momento meu pai me criticou ou manifestou descontentamento por minha escolha. Também comecei a trabalhar aos 15 anos, passando de auxiliar de desenhista a desenhista, poupando cada centavo para meu projeto de cursar faculdade. Trabalhei manhã e tarde, e estudava no período noturno. Foi assim pelos três anos do curso. Eu havia economizado todo o dinheiro que podia, praticamente abdicando de minha adolescência, mas não daria para bancar financeiramente faculdade e moradia fora de Santos. Assim, continuando o processo, no mesmo ano fui aprovado para o primeiro curso de Engenharia Civil criado em Santos. Ainda no primeiro ano do curso, voltei a trabalhar, para ajudar a custear a faculdade. Meu filho também seguiu sua vocação midiática e se sente motivado com sua escolha. Nunca o forçamos ou induzimos a escolher profissão A, B ou C, embora tivéssemos ciência de que ele tinha potencial para seguir, com sucesso, qualquer caminho que escolhesse. O trabalho dá sentido à vida na medida em que ele permite que realizemos nossos sonhos e nos dê condição para também apoiarmos os sonhos de nossos filhos. Não raro, o trabalho é o próprio sonho realizado. Por acreditar nisso é que não vejo o menor sentido em “condenar” seres humanos a viverem submetidos a interesses e definições externas, impossibilitados de tomar decisões por imposições ideológicas, culturais, religiosas ou tradicionais. Enfim, é preciso refletir sobre “liberdades” e “direitos” que se convertem em novas formas de escravidão, mesmo quando o escravo se sente contente, justificado e acomodado com essas novas formas de grilhões, desistindo de buscar novos horizontes, para além dos que lhe são destinados.