(FreePik) Há poucos dias, em uma fala sobre patrimônio, levei imagens de HBIM, digitalizações e modelos tridimensionais. Dados que pareciam respirar dentro das paredes antigas. Ainda assim, o que realmente tocou o público não foi tecnológico. Foi humano. Perguntei qual é a diferença entre tombar e preservar. O silêncio que veio em seguida lembrava o de uma praça ao amanhecer. Tombar é um ato jurídico. Preservar é um gesto cultural. Tombar impede a demolição. Preservar impede o esquecimento. O tombamento protege a matéria. A preservação protege o significado. Essa distinção acompanha a trajetória do Iphan, alinhado às diretrizes da Unesco, e também o trabalho do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural, que nas cidades traduz a política patrimonial em decisões sobre o que deve permanecer, transformar-se ou ganhar novos usos. Assim se consolidou no Brasil a ideia de que patrimônio não é apenas pedra e cal, mas também memória, identidade e modos de vida. A Carta Brasileira para Cidades Inteligentes afirma que a tecnologia deve servir às pessoas, ao território e à memória. Nesse contexto, a inteligência artificial surge como aliada do patrimônio. Não para substituir a história, mas para escutá-la com mais precisão. A IA pode analisar danos, prever riscos e transformar acervos físicos em memória digital acessível. A cidade inteligente começa quando o dado encontra o significado e o transforma em experiência compartilhada. Durante muito tempo, preservar foi visto como gasto. Hoje, estudos do Banco Mundial e do Icomos mostram o contrário. Cada real aplicado em preservação pode retornar entre quatro e dez para a economia local, por meio do turismo cultural, da geração de empregos e da valorização urbana. É um investimento que se traduz em ruas ativas, comércio aberto e centros históricos vivos. Quando uma cidade tomba, mas não preserva, surgem cenários bonitos e vazios. A fachada fica, o comércio some, o morador se muda, o centro vira cenário. Esse quadro ainda aparece em trechos do centro histórico de Santos, onde imóveis protegidos convivem com portas fechadas e pouca vida cotidiana. Em Santos, instituições como a Fundação Arquivo e Memória, o Instituto Histórico e o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural guardam acervos e decisões que moldam a memória urbana, ainda pouco acessados pelos jovens. A tecnologia pode fazer essa ponte, transformando arquivos em experiências vivas e narrativas digitais acessíveis a qualquer tela. Cidades como Itanhaém, São Vicente e Santos não precisam inventar identidade. Já nasceram com uma. O que falta não é patrimônio. É inteligência sobre ele, para que a memória não seja apenas lembrança, mas projeto de futuro. *Alessandro Lopes. Arquiteto e urbanista, especialista em Inovação, Sustentabilidade, Infraestrutura Urbana e BIM