(Reprodução) A frase é do saudoso escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Virou mantra, e mostra sua assertividade quando aplicada à administração pública. Alguns políticos eleitos aos cargos executivos, tratam logo de buscar a unanimidade nos demais órgãos do poder público. É o caso daquele prefeito que tem todos os vereadores da Câmara Municipal como sua base de apoio. Em outras palavras, não há oposição no Legislativo, neste caso. A justificativa deles é que querem “ajudar o prefeito”. Ora, mas a maior ajuda que os vereadores poderiam prestar ao município é exatamente fiscalizar as ações do Executivo. Ao servirem como base parlamentar do prefeito, a função de auditoria fica prejudicada. E nunca é demais lembrar que foram eleitos pra isso! Eis então um claro exemplo de unanimidade burra. Todavia, a máxima de Nelson Rodrigues não fica por aí... Não contente com a unanimidade na Câmara Municipal, o prefeito passa a buscá-la nos Conselhos Populares, normalmente paritários. E aqui a função precípua do Conselho (promover a participação popular na gestão) também resulta contaminada. Alguns Conselhos deliberam sobre a utilização de verbas vultusas. Por exemplo, o Comtur - Conselho Municipal de Turismo. Quando a gestão interfere nesta decisão, determinando o destino dos recursos, ela descaracteriza o próprio Conselho que, neste caso, apenas reverbera os projetos da Prefeitura. Isso desestimula a participação popular, que geralmente é voluntária e não-remunerada. Com o tempo, os Conselhos viram órgãos burocráticos, vão se tornando meras caixas de ressonância da gestão. Ao perceber a unanimidade forjada pela gestão, o cidadão pula fora do Conselho, e a cidade perde importantes sugestões que poderiam solucionar vários problemas urbanos, ou incrementar receita aos cofres públicos... E a saga da gestão pela unanimidade parece não ter fim. Órgãos classistas como sindicatos, OAB, Associação Comercial passam a ser invadidos por enviados do prefeito, sempre no sentido de enaltecê-lo, claro. As reuniões ficam monótonas, marcadas por enfadonhos elogios ao governante. E os problemas reais das categorias são varridos pra debaixo do tapete. Quem perde com tudo isso? A cidade, claro. De fato, Nelson Rodrigues estava coberto de razão quando vaticinou que “toda unanimidade é burra”. Burra e desastrosa!, Mestre. Se me permite um complemento... *Cezar Matiussi. Economista e comerciante