A internet facilitou a globalização, que compunha nossos discursos contrários no final dos anos de 1970 e 1980. Havia um temor do desconhecido e de um futuro incontrolável, da contaminação de costumes por uma cultura importada (enlatada) e desvinculada de nossas raízes. Nos reinventamos, chamados “tiozões do Orkut e do Facebook”. Vislumbravam os modos globais, a intensificação da integração econômica, política e cultural mundial. Com o avanço tecnológico e o “temor” de políticas neoliberais, a globalização foi se consolidando pela expansão de multinacionais, desregulamentação financeira, queda do bloco soviético e a emergência da internet. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Necessidades comuns de consumo, vestir igual, usar estrangeirismos para descrever atividades corporativas, estilo de vida e conceitos técnicos, como e-mail (correio eletrônico), show (espetáculo), delivery (entrega em domicílio), feedback (retorno/avaliação), hobby (passatempo), check-in (registro de entrada) etc., fixaram. E agora, a Inteligência Artificial (IA), corrobora para a ampliação e fechamento, inclusive no mundo cultural. Na produção artística, os índices de adoção e impacto de IA são mais altos na música e geração de imagens. Estudos indicam que 87% dos músicos utilizam IA em seus trabalhos; 60% dos artistas para criar músicas; 62,3% usam IA generativa com frequência e 93% dos criativos preveem que a IA mudará sua profissão nos próximos 5 anos. O mercado de arte com IA deve crescer 217% até 2030. Nas indústrias do setor, 90,3% brindam o aumento de eficiência, não apenas como ferramenta, mas como coautora, permitindo a criação de obras a partir de descrições textuais (prompts). Apesar dos temores de substituição, muitos artistas utilizam a tecnologia como aliada para ampliar suas capacidades. O setor industrial com IA passou de 16,9% para 41,9%, entre 2022 e 2024. Esse estudo é global e foi realizado pela plataforma Deezer com a Ipsos (em novembro de 2025), após entrevistar 9.000 pessoas em oito países (incluindo Brasil, EUA, Reino Unido e Japão). Apenas 3% dos participantes conseguiram diferenciar uma música gerada por IA de uma composição humana, o que significa que 97% não distinguiram. Incapazes ou desconfortáveis, vimos crescer a quantidade de música em streaming (método de transmissão e recepção), a imitar perfeitamente arranjos, timbres e estruturas musicais, antes exclusivos da criatividade humana. Na literatura, IA atua na superação do bloqueio criativo, a desenvolver enredos, personagens e revisar textos. Só que, mesmo capaz de gerar textos de qualidade mais ágeis, a IA é limitada na produção literária, pois trabalha com a média de dados existentes, carecendo da experiência humana e da inovação. Olhando o movimento da ciclovia na orla santista, acredito na comparação da IA a uma “bicicleta elétrica”, dos que escrevem: reduz o esforço físico, mas a autoria, a alma e a verdadeira inovação artística permanecem humanas.