(Pixabay) A angústia difusa que acomete o sujeito contemporâneo é multifatorial e pode estar ligada a uma falta de sentido para a vida. Isso causa um vazio indefinido, sensação de desânimo, cansaço inexplicável, perda de apetite ou voracidade por certos alimentos, diminuição ou exacerbação da libido. Resistente a tratamentos medicamentosos, a peregrinação passa por consultórios médicos e prossegue nas diferentes modalidades de terapias e psicoterapias, em tentativas de alívio muitas vezes infrutíferas. Profissionais de saúde oferecem tratamentos por vezes regidos por protocolos mais ou menos rígidos e, pior, sempre o mesmo para uma infinidade de sujeitos, desconsiderando peculiaridades, como a forma de adoecimento de cada um. Para apimentar a questão, fica a pergunta: como não adoecer numa sociedade ela mesma doente? É preciso considerar a subjetividade do sujeito em sua expressão única. Do contrário, como lidar com sintomatologia tão diversa, refratária a classificações e protocolos? É preciso considerar a multidimensionalidade da nossa manifestação. O que nos iguala, o que nos faz tão peculiares? O tema exige um olhar mais cuidadoso, dada a delicadeza que envolve a saúde mental. Qualquer que seja a escolha do cliente, é fundamental a confiança no profissional e na ética dele esperada. Afinal, cuidar não é só tratar sintomas, mas também olhar compassivamente violências como o racismo, o machismo, os estigmas da desigualdade, a falta de meios dignos de subsistência e demais condições que ferem o humano na sua inteireza. Mas como a abordagem transpessoal contribui com as demais modalidades de tratamento da angústia existencial, por exemplo? Que vantagens agrega, que limitações enfrenta? A terapia transpessoal busca integrar aspectos espirituais e transcendentais da experiência humana com os métodos tradicionais da psicologia. Portanto, considera o ser humano em sua totalidade, incluindo dimensões físicas, emocionais, mentais e espirituais. Suas bases teóricas assentam-se em diversas tradições espirituais e filosóficas, como o budismo, hinduísmo, sufismo e a psicologia junguiana. Ela também incorpora conceitos da psicologia humanista e existencial, além de teorias de desenvolvimento espiritual e estados alterados de consciência. Dentre as várias abordagens da terapia transpessoal, destacam-se: meditação e mindfulness; respiração holotrópica; visualização guiada; trabalho com sonhos; e dinâmica energética do psiquismo. Independentemente da escolha da terapia, seus pontos positivos são a integração holística, o desenvolvimento espiritual e a flexibilidade das técnicas. Mas também há limitações relacionadas à resistência de pessoas com uma visão tradicional da ciência e a necessidade de pesquisas mais amplas no âmbito acadêmico. A liberdade de escolha da abordagem, metodologia e técnicas terapêuticas é um direito inalienável do cliente, que precisa ser acolhido pelo terapeuta com, mais que cortesia e atenção, uma atitude amorosa, fornecendo todas as informações úteis para uma decisão a mais acertada possível e que atenda caso a caso. Uma vez iniciada a terapia, convém que, de tempos em tempos, uma ou mais sessões sejam destinadas à autoavaliação e à avaliação do processo em curso. Esse reajuste de rumos, se for o caso, preservará clientes e terapeuta de eventuais situações por vezes incontornáveis, pois a natureza do humano é imprevisível, por mais que o autoconhecimento venha de muitas décadas de treinamento e estudo. *Poeta, mestre em Letras e docente emérito de Português e Esperanto, autor de Rabiscos Poéticos de Um Sem Noção, terapeuta transpessoal e pós-graduado em Psicologia Analítica e Arteterapia