<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-end="621" data-start="129">Já lá se vão muitos anos... Tinha um restaurante, o Cascais, na região da avenida Paulista, próximo da Consolação. Eu morava em Perdizes, numa casa agradável com mais dois amigos. Durante anos, a rotina era as compras pela manhã, o almoço, a volta pra casa pr'aquele descanso e o retorno ao restaurante no final da tarde. No trajeto entre a casa e o Cascais, estava a infernal avenida Dr Arnaldo, e do outro lado do muro, o aprazível Cemitério do Araçá. Tenho incrível atração por cemitérios.</p> <p data-end="936" data-start="623">Na avenida, aquela loucura no horário de pico, carros, motos, pedestres, entradas do Metrô, Hospital das Clínicas. Doideira total! Dentro do cemitério, ninguém, paz absoluta, entre arranjos florais e túmulos de famílias famosas que disputam entre si as melhores esculturas em mármore e bronze, muitas lindíssimas.</p> <p data-end="1260" data-start="938">Cansado de carro e moto, volta e meia fazia o trajeto a pé, menos de 4 quilômetros. Fiz isso inúmeras vezes, tinha até esculturas prediletas que mostrava vez ou outra pros amigos. Trabalhos belíssimos em mármore e metal, com detalhes incríveis que procuravam transmitir a dor do luto. Obras de arte que adorava contemplar.</p> <p data-end="1655" data-start="1262">Até que um dia... Tchan tchan tchantchan... Adentrei no cemitério perto das 18h, tipo 17h50. Enquanto observava os túmulos, ouvi um barulho forte, metálico, que vinha de trás. Era o portão de ferro se fechando! Olhei no relógio, seis da tarde, o horário em que o cemitério fecha, deduzi. Só faltava a operação ser simultânea nos portões, e eu estaria preso dentro do Cemitério do Araçá. Bingo!</p> <p data-end="2136" data-start="1657">Bateu aquele desespero, claro. Comecei a correr rumo à outra ponta mas vi que também estava fechada. Nessas, dois funcionários naqueles carrinhos de carregar caixão me avistaram e vieram em minha direção. Se ficar, o bicho come. Se correr, o bicho pega! Ou não... Avistei um portão de ferro que dava pra subir, e lembrei de um salto infantil, onde você encosta a barriga no topo e, de ponta cabeça, faz um apoio com a mão no ferro e cai de pé... Não pensei duas vezes. Deu certo!</p> <p data-end="2581" data-start="2138">Quando os seguranças chegaram, expliquei o ocorrido e eles entenderam. Claro que estar do outro lado do muro facilitou o acordo... E a idade permitiu meu último salto olímpico da vida. Hoje, estaria na delegacia tentando convencer o delegado sobre o que um tiozinho grisalho fazia, correndo entre túmulos no belo Cemitério do Araçá... A estória rendeu boas risadas, ao chegar ao restaurante Cascais. Estórias, nossas Estórias... Certo, Chorão?</p> <p data-end="2632" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2583">*Cezar Augusto Matiussi. Economista e comerciante</p>