(FreePik) Nunca foi tão fácil falar e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil dizer. A palavra, antes ponte, hoje muitas vezes se converte em terreno minado. Avançamos com cautela, como quem pisa em ovos, receosos de que qualquer nuance, por menor que seja, desencadeie reações desproporcionais. É o tempo dos melindres... Uma palavra mal colocada, um comentário inocente ou uma opinião divergente faz o mundo desabar sobre o autor. E as ofensas ocorrem por tudo: um elogio ao físico pode soar machista, uma crítica ao trabalho, bullying; e até piadas leves viram crimes de ódio. O resultado é uma convivência marcada pela hipersensibilidade e pela constante vigilância verbal. Nas redes sociais, esse fenômeno alcança seu grau máximo. A chamada “cultura do cancelamento” elevou os melindres individuais à dimensão coletiva. Opiniões divergentes deixam de ser debatidas para serem combatidas. Pessoas são expostas, ridicularizadas e, muitas vezes, condenadas sumariamente por frases isoladas, recortes descontextualizados ou interpretações precipitadas. Em nome de uma suposta justiça moral, instala-se uma intolerância que raramente admite nuance, dúvida ou reconsideração. É verdade que avanços importantes ocorreram nas últimas décadas. Tornamo-nos mais atentos ao respeito às diferenças, às minorias e às diversas formas de violência antes naturalizadas. Essa consciência social representa conquista civilizatória legítima. O problema surge quando toda experiência subjetiva passa a ocupar lugar absoluto e incontestável. Nesse ambiente, sentir-se ofendido parece bastar para transformar qualquer discordância em agressão. A consequência inevitável é o empobrecimento do debate. Diante do receio de julgamentos públicos, muitos preferem o silêncio à exposição. Opina-se menos, pondera-se excessivamente cada palavra, evita-se o contraditório. Aos poucos, instala-se uma espécie de autocensura social, em que não se busca mais compreender o outro, mas apenas evitar desgaste. Fatores emocionais também alimentam esse cenário: autoestima fragilizada, necessidade constante de validação e dificuldade crescente de lidar com frustrações. As redes sociais amplificam tais fragilidades ao criar bolhas de confirmação, onde cada indivíduo encontra apenas discursos semelhantes aos seus. Fora desses círculos, qualquer discordância passa a ser percebida como ameaça. A pandemia, o clima de polarização política e a tensão permanente dos últimos anos intensificaram ainda mais esse estado de sensibilidade exacerbada. Tornou-se comum reagir antes de refletir, interpretar antes de ouvir e condenar antes de compreender. Talvez seja tempo de recuperar algum equilíbrio. Nem a aspereza insensível diante da fala do outro, nem o melindre constante que transforma qualquer palavra em ofensa. Conviver exige maturidade para falar com responsabilidade, mas também para ouvir sem transformar cada divergência em afronta pessoal. Viver em sociedade pressupõe aceitar o desconforto das diferenças. Sem isso, o diálogo desaparece, a reflexão empobrece e a linguagem perde sua função mais humana: aproximar, e não separar. *Taís Curi. Jornalista, escritora e presidente da Academia Santista de Letras