Recordo, quando criança, dos sonhos, das ilusões. Das brincadeiras afáveis que nos preparam para a vida. Da vida despretensiosa, passando suavemente como um doce verão... Hoje, sou um “menino” adulto, mas, assim como acontece comigo, tenho certeza de que a infância é um período inesquecível. Todos recordamos as fases que vivemos: do nosso velho jardim de infância, da escola primária e do ginásio. Foram tempos em que adquirimos os primeiros saberes que nos prepararam para a vida adulta. Tempo em que construímos as primeiras relações sociais convivendo com outras crianças. Um tempo de travessuras inocentes, não de maldades. Era uma época em que a urgência do presente não existia e o relógio não era consultado a cada instante. Era um tempo livre de compromissos, longe das responsabilidades adultas. Lembro-me de como minha mãe me colocava na cama por volta das 21 horas e, de manhã, me acordava com carinho, já com o café da manhã à mesa, pronta para me levar à escola. Ah, que tempo bom era aquele! Tempo dos joelhos ralados, de brincar ao ar livre. Quando ainda se acreditava em Papai Noel, o bom velhinho que nos presenteava não com equipamentos de IA, mas sim com carrinhos, com bolas ou bonecas para as meninas. Permanecem em minha memória as lembranças dos brinquedos e brincadeiras daquele tempo. Então era possível e seguro brincar na rua, jogar taco na calçada, brincar de mãe da rua, de esconde-esconde, de pega-pega, do jogo de botão, pular corda e outras brincadeiras saudáveis e estimulantes, ao lado de outras crianças. Lembro dos jogos de futebol no meio da rua onde eu morava, quando o número de carros era ínfimo comparado ao de hoje. As traves eram dois pares de chinelos; a bola podia ser uma meia cheia de panos ou papel, tudo valia pela diversão. Era comum que o jogo fosse interrompido quando algum carro se aproximava; assim que percebíamos, corríamos para retirar as “traves”, aguardávamos a passagem do carro e continuávamos a pelada. Lembro do meu primeiro carrinho de rolimã e das marcas esbranquiçadas deixadas na calçada pelas rodinhas; marcas silentes que o tempo não conseguiu apagar. Brincadeiras essas que seguiam pela adolescência e nos preparavam para a vida adulta. Reminiscências colecionadas, que nos permitem viajar no tempo, recordar seres amados e histórias do passado. Momentos de felicidade, guardados na memória, que nunca hei de esquecer. Como seria bom devolver às nossas crianças o tempo descompromissado, o tempo de brincar com a imaginação e de conviver em meio a brincadeiras infantis. Contudo, as crianças de hoje se preparam para novas condições no contexto existencial em que irão lidar e se envolver com modelos de trabalho nos quais a inteligência artificial predominará. Ah, que saudade do meu tempo de criança! *Arquiteto e urbanista, membro da Academia Santista de Letras